Por: Luís Jimbo
O pedido de desculpas do deputado é um acto que se regista. Mas, num Estado democrático, as palavras de um representante público não são neutras, têm peso político, histórico e institucional.
Angola não é um país qualquer. Nós somos UM POVO E UMA SÓ NAÇÃO, de identidades, etnias, raças e crenças diferentes. Somos um povo unido, com um passivo histórico de guerras antes e depois da independência, incluindo conflitos após o multipartidarismo, cujo único sujeito e protagonista fomos nós mesmos, entre irmãos.
Famílias foram divididas por ideologias políticas como a UNITA e o MPLA.
Falar em “extinção” pela guerra de um contra o outro não é apenas retórica política, é um retrocesso perigoso para a cura das feridas das famílias angolanas, que viveram e sofreram a guerra, e cuja dor ainda pesa.
Quem é para ser extinto? A ideologia do adversário político… ou o próprio irmão angolano?
Trazer linguagem de “extinção” do outro, do teu irmão da mesma pátria, para o debate político parlamentar, num contexto de democracia multipartidária, é reabrir feridas que o Estado angolano, na figura do Chefe de Estado, tem procurado sarar através de investimentos na unidade nacional e na reconciliação. Exemplos disso são iniciativas como a Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP), a homenagem aos signatários dos Acordos de Alvor nos 50 anos da independência, o Memorial da Batalha do Cuito Cuanavale e outros programas que ajudam a construir uma memória colectiva de patriotismo, heroísmo e progresso, 24 anos depois do fim da guerra.
Não podemos ter dois discursos: um institucional de paz e outro político de eliminação. Isso enfraquece a democracia e banaliza a memória colectiva da guerra.
Aos políticos é exigida responsabilidade, maturidade, coerência e compromisso com a paz e a unidade nacional. Porque a paz em Angola não é apenas um dado histórico, é uma construção diária na vida de cada angolano e angolana. E começa pelas palavras, misturando-se com a dignidade da pessoa humana, fundamento do Estado angolano consagrado no primeiro artigo da Constituição.
Como recordou o Papa Leão XIV na sua mensagem em Angola: “Mas há uma terceira forma, a mais adequada, de enfrentar o conflito: é aceitar suportá-lo, resolvê-lo e transformá-lo no elo de ligação de um novo processo. Felizes os pacificadores!”



