Por Kamalata Numa
Luanda, 31/08/2026
Intróito a minha crença
Hoje, 31 de Agosto é data do meu aniversário. Nada melhor para me recordar do meu Pai Ernesto Kamalata e minha Mãe Rita Tchipondia que me ensinaram a oração da crença de Angola estar acima de qualquer ser carnal. Muito obrigado.
Angolanos, devemos acreditar na nossa soberania popular — e na sua democracia. Porque, Eles, já existem no nosso ordenamento politico pelo qual lutamos estes anos todos e aceitamos a tutela da Tróika de Observadores (Portugal, EUA e Rússia) que hoje pouco fazem para consolidação desse compromisso onde estiveram e estão envolvidos.
Devemos creditar numa sociedade fundada no Estado de direito — e onde todas as pessoas têm o mesmo valor.
Devemos acreditar numa sociedade onde vemos e reconhecemos as qualidades de cada um — para que, juntos, possamos criar uma Angola onde todos possam contribuir e sentir-se em casa.
Devemos acreditar em uma Angola onde há lugar para todos.
Devemos acreditar em uma sociedade onde João Manuel Gonçalves Lourenço, a sua esposa, os seus filhos, os militantes e membros do MPLA, não tenham mais valor do que todos angolanos.
Angolanos, são estes valores plasmados na Constituição da República de Angola que levaram milhares de angolanos a morte estes anos todos, levaram a morte até a humilhação à Jonas Malheiro Savimbi, que têm levado Adalberto Costa Júnior a defender-se da perseguição até a exaustão para realizar Angola una e indivisível.
É por estes valores que morremos e continuaremos prontos a morrer, defendendo Angola até as últimas consequências.
A DOUTRINA DESSA CRENÇA
A nossa crença em Angola não é, por isso, uma crença abstracta, sentimental ou desligada da realidade. É uma escolha consciente de colocar a Pátria acima dos interesses particulares, das ambições de poder e das conveniências de qualquer grupo, Assim, nos ensinou, a todos, Jonas Malheiro Savimbi. Uma Nação não se constrói quando os seus cidadãos são ensinados a acreditar que o Estado pertence a alguns e que os demais devem apenas obedecer. Constrói-se quando cada angolano compreender que a soberania reside no povo e que o poder político só encontra legitimidade quando é exercido em nome do povo, dentro da Constituição e da Lei. A minha geração conheceu a guerra, a pobreza, o medo, a separação das famílias e a destruição de vidas. Conheceu também a esperança de que a paz pudesse abrir o caminho para uma verdadeira reconciliação nacional. Por isso, acreditar em Angola significa hoje recusar que a paz seja apenas a ausência das armas. A paz verdadeira é aquela em que o cidadão deixa de ter medo do Estado, em que a justiça não escolhe os seus destinatários, em que a polícia protege todos, em que o voto tem valor e em que ninguém precisa de pertencer ao partido político dominante para ser tratado como cidadão de pleno direito.
A soberania popular é, neste sentido, muito mais do que o acto periódico de depositar um boletim numa urna. Ela é o princípio segundo o qual nenhum governante ( João Manuel Gonçalves Lourenço) é proprietário da Nação e nenhum partido é proprietário do Estado. O povo confere temporariamente o poder para que este seja exercido como mandato e não como património. Quando o poder deixar de prestar contas, quando as instituições passarem a servir mais a permanência dos governantes do que a vontade dos governados, quando a administração pública se confundir com a estrutura partidária e quando os processos eleitorais deixarem de transmitir confiança, a própria essência da República fica ferida. Angola precisa de recuperar o sentido profundo da palavra cidadania: cada pessoa deve saber que tem direitos, mas também responsabilidades; que pode discordar sem ser inimigo; que pode criticar sem ser perseguida; que pode votar livremente sem receio; e que pode mudar de opinião sem perder a sua dignidade. É nesta passagem do súbdito para o cidadão, do medo para a liberdade e da obediência para a participação que a soberania popular encontra a sua verdadeira dimensão histórica.
A democracia que Angola procura não pode ser reduzida à existência formal de partidos políticos, parlamentos, tribunais ou eleições. A democracia é uma cultura política e moral que exige instituições independentes, regras previsíveis, respeito pelas minorias, liberdade de expressão, liberdade de reunião, imprensa livre e igualdade perante a Lei. É por isso que a defesa do Estado de direito não deve ser apresentada como uma luta de uma pessoa contra outra, de um partido político contra o outro ou de uma região contra a outra. É uma luta pela dignidade de todos. Um Estado de direito verdadeiro não pergunta primeiro a que partido político pertence o cidadão para depois decidir se merece justiça. Não pergunta qual é a sua origem, a sua família, a sua província ou a sua posição social. A Lei deve proteger o cidadão precisamente porque ele é cidadão. E quando a Lei é aplicada de maneira desigual, deixa de ser instrumento de justiça e transforma-se em instrumento de poder. Angola precisa de uma República em que o cidadão mais humilde possa olhar para a Constituição e dizer: «esta Constituição também é minha; este Estado também é meu; esta Pátria também me pertence».
É desta forma que a igualdade política adquire uma importância extraordinária. Nenhum Presidente, nenhuma primeira-dama, nenhum filho de Presidente, nenhum empresário ligado ao poder, nenhum general, nenhum comissário, nenhum deputado, nenhum dirigente partidário e nenhum militante de qualquer partido pode valer politicamente mais do que o cidadão anónimo que vive numa aldeia distante, numa periferia de Luanda, em Kabinda, no Huambo, no Uíge, no Moxico Leste, no Kuando, no Kunene, na Huila ou em qualquer outro ponto do território nacional. A República não pode possuir cidadãos de primeira e cidadãos de segunda. As diferenças económicas podem existir numa sociedade; as diferenças de talento, profissão, experiência e responsabilidade também. Mas perante a Lei e perante a soberania popular, a dignidade humana não tem hierarquia. Esta é uma das grandes batalhas morais de Angola: substituir a lógica do privilégio pela lógica da cidadania. Quando isso acontecer, o filho do camponês poderá olhar para o filho do Presidente sem ressentimento, e o filho do Presidente poderá olhar para o filho do camponês sem superioridade. Será então possível construir uma Pátria em que a diversidade social deixe de ser motivo de exclusão e passe a ser fonte de riqueza nacional.
A nossa memória de Jonas Malheiro Savimbi inscreve-se também nesta necessidade de compreender Angola para além das paixões imediatas. A História não deve ser utilizada para perpetuar ódios, mas também não pode ser escrita pela força. Uma Nação reconciliada precisa de ter coragem para olhar para o seu passado inteiro, reconhecer os sofrimentos de todos e devolver dignidade às vítimas, independentemente do lado em que tenham estado. A humilhação de homens que marcaram profundamente a História de Angola não apaga as responsabilidades históricas, políticas e militares que possam ser discutidas; pelo contrário, demonstra a necessidade de uma cultura nacional capaz de separar a crítica política da desumanização do adversário. Da mesma forma, a luta de Adalberto Costa Júnior e de tantos outros cidadãos pela afirmação de uma Angola una e indivisível deve ser compreendida dentro do direito de participação política e da alternância democrática. Angola não pertence ao MPLA, à UNITA, ao PRS, à FNLA, ao Bloco Democrático ou a qualquer outra organização. Angola pertence aos angolanos. Os partidos políticos são instrumentos da democracia; a Pátria é anterior e superior a todos eles.
Por isso, quando digo «EU ACREDITO», não estou a dizer que acredito cegamente em homens, partidos políticos ou promessas. Acredito no povo angolano. Acredito na capacidade de um povo que sobreviveu à guerra, atravessou décadas de sofrimento e continua a procurar uma vida melhor para os seus filhos. Acredito no jovem que quer estudar e trabalhar sem precisar de padrinhos. Acredito na mulher que sustenta a família e exige respeito. Acredito no camponês que produz e deseja estradas para levar os seus produtos ao mercado. Acredito no professor que ensina apesar das dificuldades. Acredito no médico, no enfermeiro, no trabalhador, no empresário, no funcionário público, no estudante, no artista e em todos aqueles que, silenciosamente, mantêm Angola viva. Acredito que a diversidade de Angola — política, cultural, linguística, regional e social — não é uma ameaça à unidade nacional. A verdadeira unidade não nasce da uniformidade; nasce da capacidade de diferentes angolanos se reconhecerem como membros da mesma comunidade política.
No meu aniversário, portanto, a minha palavra não é apenas de celebração pessoal. É uma reafirmação de compromisso. Recebo mais um ano de vida como uma responsabilidade acrescida perante a memória dos meus pais, perante os que tombaram e perante os que ainda nascerão. Por isso, devemos todos gritar bem alto: Não queremos uma Angola onde alguém tenha de pedir licença para ser cidadão. Não queremos uma Angola onde a alternância seja tratada como ameaça à Pátria. Não queremos uma Angola onde a diferença política seja confundida com traição. Não queremos uma Angola onde haja angolanos extremamente ricos com maioria extremamente pobres. Queremos uma Angola onde perder eleições seja normal, onde ganhar eleições seja uma responsabilidade, onde entregar o poder seja um acto de grandeza republicana e onde nenhum governante tenha razões para temer o dia em que deixará o poder, porque sabe que a Lei, e não a vingança, governará o seu destino. É esta Angola que devemos entregar aos nossos filhos e netos. É esta Angola que merece a nossa coragem. É esta Angola que merece a nossa inteligência. É esta Angola que merece a nossa esperança. E é por isso que, no dia do meu aniversário, depois de tudo o que a História nos ensinou, vamos continuar a dizer aos angolanos, com a mesma fé que eu e todos vocês aprendemos dos nossos pais: EU ACREDITO. Angola acima de todos nós. Angola para todos nós. Angola pertence aos angolanos.
OBRIGADO.



