Esta manhã fui a Viana tratar de um assunto. No regresso, fui interpelado por uma prima que momentos antes, negociava uma corrida com um mototaxista. Ao ver-me, preferiu pedir-me boleia, já que seguíamos na mesma direcção. Naturalmente, aceitei com muito gosto. Há muito tempo que não nos víamos e aqueles cerca de trinta minutos de viagem acabaram por se transformar numa conversa inesquecível.
A minha prima é filha de pais nacionalistas que, nos anos 60, fizeram parte da história da luta pela libertação de Angola. Nós próprios fomos testemunhas de uma parte dessa odisseia.
Naquela época vivíamos no bairro das Cacilhas, lá no Wambu. Certo dia, vimos chegar de comboio uma família numerosa, proveniente do Lobito ou de Benguela. Instalaram-se discretamente na nossa vizinhança e ali permaneceram durante muito pouco tempo, talvez menos de três meses. Eram pessoas reservadas, falavam pouco e evitavam chamar a atenção.
De repente, desapareceram tão misteriosamente quanto tinham aparecido.
Só voltámos a ouvir falar deles depois do 25 de Abril de 1974. Soubemos então que etapa após etapa, tinham conseguido fugir de comboio para o então Congo-Leopoldville, onde se juntaram a um dos movimentos de libertação de Angola.
Mas a história que hoje ouvi da minha prima é bem diferente.
Contou-me que há alguns meses, um dos seus filhos foi atingido por uma bala perdida durante um confronto entre grupos rivais num bairro da capital. O jovem foi transportado de urgência para uma unidade hospitalar.
Assim que recebeu a notícia, correu para o hospital. Mal chegou, foi confrontada com uma exigência dramática: o filho precisava de uma intervenção cirúrgica imediata e era indispensável encontrar, sem demora, um dador de sangue.
Desesperada, começou a telefonar para familiares e amigos.
Foi então que um dos guardas do hospital se aproximou e lhe disse, em voz baixa:
“Se a senhora precisar de sangue, eu posso dar meio litro… por 13.000 kwanzas.”
A minha prima recusou. Mas o homem insistiu:
“Por favor, minha senhora, ajude-me. A senhora é esposa e sabe o que significa um homem chegar a casa com 13.000 kwanzas para entregar à mulher. Com esse dinheiro, ela ainda consegue comprar alguma coisa para as crianças comerem.”
Felizmente, alguns familiares do rapaz já estavam a caminho do hospital para fazer a doação de sangue, e a cirurgia pôde realizar-se.
Mas o que mais marcou a minha prima não foi a proposta do guarda. Foi a expressão de profunda desilusão estampada no rosto daquele homem quando percebeu que perdera a oportunidade de levar algum dinheiro para casa.
Naquele instante, ela deixou de ver apenas um funcionário de um hospital. Viu um pai desesperado, esmagado pela pobreza, disposto a vender o próprio sangue para alimentar os filhos.
No fim da nossa conversa, fez-se um longo silêncio dentro do carro.
Depois, com a voz embargada, a minha prima murmurou:
“Primo, não foi para isto que os nossos pais arriscaram a vida. Não foi para isto que tantos angolanos se sacrificaram.”
As suas palavras ficaram a ecoar dentro de mim.
Porque uma independência só cumpre verdadeiramente a sua missão quando a dignidade do povo deixa de ser negociada. E um país onde um pai precisa de vender o próprio sangue para matar a fome dos filhos é um país que ainda tem uma longa dívida por saldar com aqueles que sonharam a sua liberdade.



