Por Kamalata Numa
Luanda, 27/07/2026
A imagem da cobra confrontada com o seu próprio veneno constitui uma das alegorias mais expressivas para compreender os processos de degradação dos sistemas políticos. Enquanto o veneno permanece confinado às glândulas que o produzem, representa um instrumento de defesa ou de ataque. Porém, quando esse mesmo veneno penetra na corrente sanguínea do próprio organismo, deixa de servir a sobrevivência para se transformar em um agente de auto-destruição. Transportada para a realidade angolana, esta metáfora permite reflectir sobre uma cultura política que, ao longo de décadas, consolidou práticas de concentração do poder, rivalidade interna, exclusão política e desconfiança permanente. Quando essas práticas deixam de ser dirigidas apenas para os adversários externos e passam a consumir os próprios protagonistas do sistema, o organismo político entra na fase de destruição estrutural.
É nesta perspectiva que muitos observadores interpretam as tensões públicas entre João Manuel Gonçalves Lourenço e Higino Carneiro. Independentemente das causas concretas que alimentam esse confronto, o seu significado ultrapassa largamente a esfera pessoal. O que emerge é a manifestação visível das contradições acumuladas durante décadas no interior do próprio sistema político. As feridas abertas deixam de ser simples episódios conjunturais para revelarem fracturas profundas na forma como o poder foi organizado, exercido e preservado. Quando os mecanismos internos deixam de conseguir absorver as divergências, estas transformam-se em sintomas de uma crise institucional mais ampla.
A verdadeira questão, portanto, não reside apenas na existência de conflitos entre dirigentes. Em qualquer organização política, a divergência faz parte da dinâmica natural. O problema surge quando essas divergências resultam de uma cultura institucional incapaz de produzir mecanismos permanentes de arbitragem, renovação e responsabilização. Nessa circunstância, cada conflito deixa de fortalecer a organização através da correcção dos seus erros e passa a acelerar a erosão da confiança entre os seus próprios membros, afectando simultaneamente a estabilidade das instituições do Estado.
A alegoria da cobra torna-se então particularmente esclarecedora. Durante muitos anos, o veneno pode parecer útil para garantir disciplina interna, eliminar rivais ou assegurar a manutenção do poder. Contudo, quando esse mesmo veneno começa a circular na corrente sanguínea do organismo que o produziu ao penetrar através das feridas abertas, nenhuma das suas partes permanece verdadeiramente protegida. A lógica da suspeição permanente, da personalização do poder, das alianças circunstanciais e da instrumentalização das instituições acaba inevitavelmente por atingir todos aqueles que dela participaram. O sistema deixa de distinguir quem ataca de quem é atacado, porque todos respiram o mesmo ambiente político e todos passam a ser vulneráveis aos mesmos mecanismos que anteriormente pareciam servir apenas para neutralizar adversários.
Perante esta realidade, torna-se ilusório esperar que a simples substituição de protagonistas resolva problemas cuja natureza é estrutural. As pessoas mudam; as culturas políticas permanecem, se não forem objecto de uma profunda transformação institucional. A história demonstra que sistemas excessivamente dependentes da concentração do poder tendem a reproduzir ciclicamente os mesmos conflitos, ainda que sob diferentes lideranças. O verdadeiro desafio consiste em substituir a lógica da hegemonia pela lógica das instituições, da separação de poderes, da prestação de contas e da soberania efectiva dos cidadãos.
É nesta perspectiva que ganha particular relevância o papel desempenhado por Adalberto Costa Júnior, enquanto Presidente da UNITA e Coordenador da Frente Patriótica Unida (FPU). Ao longo da sua liderança, tem defendido de forma reiterada a necessidade de uma transição democrática responsável, assente no diálogo político, na alternância constitucional e na estabilidade institucional. Os seus sucessivos apelos a um Pacto de Estabilidade Nacional têm procurado afirmar que a mudança política não deve significar ruptura do Estado nem perseguição dos vencidos, mas antes a construção de um novo consenso nacional fundado no respeito pela Constituição, pela soberania popular, pela reconciliação entre angolanos e pela preservação da paz.
Assim, a proposta de uma transição democrática responsável adquire um significado estratégico. Ela procura retirar Angola da lógica da victória absoluta de uns sobre os outros para introduzir uma cultura política baseada na confiança e legitimidade institucional, na previsibilidade das regras democráticas e na aceitação da alternância como elemento normal da vida republicana. Um verdadeiro Pacto de Estabilidade Nacional não serviria apenas para assegurar uma sucessão pacífica do poder, mas igualmente para oferecer garantias institucionais que permitam a todos os actores políticos confiar que o futuro da Nação será determinado pela vontade soberana do povo e não pela força das circunstâncias ou pelo controlo dos aparelhos do Estado.
Daqui, decorre o conceito de soberania popular que passa a assumir toda a sua dimensão histórica. Num Estado democrático, a legitimidade suprema não pertence aos partidos, aos governos nem às lideranças individuais. Pertence exclusivamente ao povo. É a soberania popular que constitui o verdadeiro antídoto contra o veneno da auto-destruição dos sistemas políticos, porque desloca o centro da legitimidade do conflito interno das elites para a livre decisão dos cidadãos, dos membros e militantes. Quanto mais madura for essa consciência cívica, menor será a capacidade das disputas internas do poder condicionarem o destino colectivo da Nação e dos partidos políticos.
Daqui decorre igualmente uma enorme responsabilidade para os cidadãos angolanos e para todas as forças comprometidas com a democratização do País. A resposta às crises do poder não deve ser o aprofundamento das fracturas sociais nem a multiplicação das divisões entre aqueles que defendem a alternância democrática. A unidade das forças democráticas, o fortalecimento da sociedade civil, a vigilância eleitoral, a defesa da legalidade constitucional e a participação activa dos cidadãos constituem condições indispensáveis para que a soberania popular prevaleça sobre qualquer lógica da hegemonia. A democracia fortalece-se quando a cidadania nacional e nos partidos políticos permanece unida em torno dos princípios e não quando se deixa dividir pelas circunstâncias.
Se a alegoria da cobra encerra uma lição para Angola, ela é esta: nenhum sistema consegue sobreviver indefinidamente quando o seu próprio veneno começa a destruir os seus órgãos vitais. Porém, as nações são sempre maiores do que os ciclos de qualquer partido ou de qualquer liderança. Quando a soberania popular se afirma como fundamento efectivo do Estado, quando os cidadãos colocam o interesse nacional acima das disputas conjunturais e quando a transição democrática é conduzida com responsabilidade, diálogo e sentido de Estado, o veneno deixa de determinar o futuro colectivo. É então que Angola poderá transformar uma crise interna do poder em uma oportunidade histórica para consolidar uma democracia plural, reconciliada, institucionalmente estável e verdadeiramente orientada para o bem comum de todos os angolanos.
OBRIGADO



