De acordo com a CNN-Portugal na sua edição desta terça-feira, 20 de Maio de 2025, arrancou a última oportunidade do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, encontros com os Partidos políticos da maioria direita e uma solução de bloco Central.
O Presidente da República começa a receber os partidos com assento parlamentar para encontrar uma solução que garanta estabilidade para a próxima legislatura. Para os analistas políticos, a influência que Marcelo terá nestas rondas negociais – que serão mais demoradas – vai ser o último grande exame de um chefe de Estado que ainda luta para mudar a forma como será recordado.
Há algo que Marcelo Rebelo de Sousa tem ficado habituado ao longo dos nove anos de residência em Belém: indigitar novos Governos. Esta terça-feira marca a quarta e última vez que convoca os representantes dos partidos políticos para procurar uma solução que dure até ao fim da legislatura, sabendo que da última vez que tentou alcançar a tão desejada estabilidade, ela rebentou em onze meses. Daí que o Presidente da República já tenha tirado lições sobre o que não correu bem no ano passado e tenha proposto, agora, um período mais longo para conversar com os dirigentes partidários – cerca de duas horas – e um calendário mais demorado até empossar o próximo primeiro-ministro, que pode vir a acontecer depois do dia 10 de junho.
Marcelo aparece mais cauteloso. Esse clima advém de um crescimento exponencial do Chega, que se pode tornar a segunda força mais votada, e de uma ausência de liderança no PS, com Pedro Nuno Santos a anunciar a sua demissão no domingo. Mas também do impacto profundo que a sua decisão pode ter no legado que quer deixar em Belém. “A pressão que tentará exercer e o que resultar dela vai marcar aquilo pelo qual a história o virá a conhecer”, refere o politólogo e professor catedrático José Filipe Pinto.
O Presidente da República está, continua José Filipe Pinto, a “lutar pelo seu legado” que procura que seja um de “estabilidade”. “Marcelo não vai querer ser ele o responsável pelo fim do bipartidarismo e pela ascensão de um partido antissistema que o põe em causa”. O risco para a reputação do Chefe de Estado é, também ele, demasiado grande. “Marcelo começou com uma política de afetos, que granjeou uma enorme popularidade, mas as sucessivas crises políticas fragilizaram a sua popularidade, algo que o próprio convive muito mal”.
Assim, entre os politólogos ouvidos pela CNN Portugal, a negociação com os partidos políticos que vai durar pelo menos duas semanas irá ser o último e maior teste à forma como um dia será recordado. Nas reuniões, que este ano vão ser mais longas e terão duas rondas com os partidos mais votados, o Presidente da República já estabeleceu uma agenda de tópicos a discutir: primeiro, o resultado; depois, a realidade internacional; e, finalmente, o posicionamento de cada partido caso haja uma moção de censura à viabilização do programa do Governo.
E a verdade é que, aritmeticamente, o Presidente da República tem uma solução bastante fácil para alcançar uma maioria muito absoluta no Parlamento, promovendo um entendimento de base entre AD, Chega e Iniciativa Liberal que perfazem hoje 156 deputados, mais de dois terços dos assentos na AR e mandatos suficientes para avançarem conjuntamente para uma revisão constitucional.
Para o investigador e professor universitário Riccardo Marchi, a possibilidade de um entendimento que contemple toda a direita deveria estar no pensamento do Presidente da República já que, “sendo uma figura institucional”, “deveria facilitar as fórmulas obtidas democraticamente nas eleições de domingo”.
“Creio que poderá considerar falar com Montenegro, Ventura e com Rui Rocha, líder da Iniciativa Liberal, na tentativa de ver se há a possibilidade de uma viragem histórica nas relações parlamentares”.
Marcelo, continua, tem a hipótese de “tornar-se o garante da estabilidade governamental, pelos meses que lhe ficam de presidência”. “E alcançar uma maioria estável e sólida seria um legado importante”.
Do “não é não” ao “sim é sim a Portugal”.
No centro desse entendimento estará o pensamento de Luís Montenegro, que desde que tomou as rédeas do PSD tem sido irredutível na visão de que não irá ter qualquer tipo de entendimento com o Chega. No entanto, no discurso de vitória de domingo, questionado sobre se mantinha a estratégia do “não é não” a André Ventura, o líder da AD inaugurou uma nova resposta: “sim é sim a Portugal”.
Palavras essas que terão peso no início das rondas negociais em Belém. Especialmente, porque a alternativa será sempre mais frágil e dependerá da inclusão do próximo líder socialista. Com a saída de cena de Pedro Nuno Santos, é Carlos César quem assume a liderança interna e, no domingo, à entrada para o Altis onde viu a hecatombe do seu partido, acabou por desvendar a sua visão para a estratégia de um PS derrotado. “Teremos que respeitar o resultado das eleições e todos temos que ponderar as melhores e as piores razões que levaram a tais decisões”.
Com um PS sem líder e a tentar ganhar tempo até ao próximo desafio eleitoral – as autárquicas este ano -, Riccardo Marchi sugere que qualquer solução que dependa dos socialistas para estabilidade é frágil e que Marcelo terá de ter isso em conta. “Creio que o Presidente da República não quer acabar o seu mandato, empossando um governo minoritário que, nos próximos meses, vai fazer a mesma coisa que fez no último ano da legislatura, ou seja, ir à procura de sobreviver pedindo esmola a um PS muito fragilizado”.
Nessa linha, um governo com apoios da Iniciativa Liberal e do Chega parece ser, para Marchi, “a única solução séria, ainda que minimamente inovadora”. “E tem para Marcelo o benefício de lhe permitir sacudir qualquer culpa por uma crise futura, já que a responsabilidade desse entendimento estável e de maioria passará para os líderes políticos”.
Certo é que o discurso de “grande ajuste de contas” que André Ventura teve na noite eleitoral esteve bastante mais virado contra a esquerda do que contra a AD, contra quem preferiu não individualizar em demasia os ataques. Em contraste, isto foi o que disse do PS, CDU e Bloco de Esquerda: “O Chega superou o partido de Mário Soares, matou o partido de Álvaro Cunhal e varreu do mapa o BE”.
Ainda assim, as tensões são salientes e, para José Filipe Pinto, não parece haver solução que não passe por um entendimento entre Luís Montenegro e a direção do PS, algo impensável para o demitido Pedro Nuno Santos. “Marcelo Rebelo de Sousa não quer uma solução de bloco central, mas vai apelar ao PS para que viabilize o programa de governo, reforçando-lhe que a atual liderança do PS já não tem uma legitimidade efetiva para condicionar o governo”. “A estratégia do PR deverá ser mostrar que, sendo uma liderança em fim de mandato, não se justifica criar uma situação que poderá não ser sufragada pela direção seguinte”.
De resto, Marcelo deu já esta terça-feira ao final da tarde o pontapé de saída. “À partida, não há razões para considerar que os partidos não queiram colaborar para a governabilidade.”

