{"id":794,"date":"2025-02-06T15:14:30","date_gmt":"2025-02-06T14:14:30","guid":{"rendered":"https:\/\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/?p=794"},"modified":"2025-02-06T15:15:25","modified_gmt":"2025-02-06T14:15:25","slug":"antigo-ministro-portugues-conta-como-ia-ser-fuzilado-em-angola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/antigo-ministro-portugues-conta-como-ia-ser-fuzilado-em-angola\/","title":{"rendered":"Antigo ministro portugu\u00eas conta como ia ser fuzilado em Angola"},"content":{"rendered":"<p>O antigo ministro da Economia de Portugal Ant\u00f3nio Costa Silva, relatou nesta quinta-feira, 30 de Janeiro de 2025, \u201c relata os horrores da guerra em livro\u201d, e lembra como foi torturado meses a fio na Cadeia de S\u00e3o Paulo, em Luanda,\u00a0 e s\u00f3 n\u00e3o foi fuzilado por um triz, este \u00e9 o lado oculto da sua hist\u00f3ria. Segundo a entrevista concedida recentemente ao site da SAPO, no acto de apresenta\u00e7\u00e3o da reedi\u00e7\u00e3o do seu livro.<\/p>\n<p><strong>&#8220;DISSERAM-ME QUE IA SER FUZILADO E, PRONTO, \u00c9 O \u00daLTIMO DIA DA MINHA VIDA\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>Entrevista completa<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 conhecido por ser o autor do plano estrat\u00e9gico de recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica para Portugal e ex-ministro da Economia e do Mar do \u00faltimo governo liderado por Ant\u00f3nio Costa, mas poucos conhecem a sua hist\u00f3ria de vida.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Costa Silva nasceu h\u00e1 72 anos em Nova Sintra, Catabola, no Bi\u00e9, Angola. Aos nove anos descobriu que a vida n\u00e3o \u00e9 perfeita e era ainda o jovem &#8216;Ch\u00edbias&#8217;, alcunha do tempo da faculdade, quando sofreu na pele os horrores da guerra, foi torturado meses a fio na pris\u00e3o de S\u00e3o Paulo, em Luanda, e n\u00e3o foi fuzilado por um triz.<\/p>\n<p>No ano que marca os 50 anos da independ\u00eancia, a 11 de novembro de 1975, Ant\u00f3nio Costa Silva publica &#8220;Desconseguiram Angola&#8221;, muito mais do que um romance, um grito de revolta contra a guerra, a destrui\u00e7\u00e3o e a desumaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O livro, que ser\u00e1 apresentado hoje ao final da tarde, \u00e9 o pretexto para uma conversa com o SAPO24, que decidimos dividir em duas partes: a primeira sobre a vida em Angola e a guerra, a segunda sobre a economia e o futuro da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Desconseguiram Angola&#8221; j\u00e1 tinha sido publicado antes, sob pseud\u00f3nimo. Porqu\u00ea a reedi\u00e7\u00e3o, agora com o seu nome?<\/strong><\/p>\n<p>O livro foi escrito no auge da guerra civil e \u00e9 um grito de revolta contra a guerra, a destrui\u00e7\u00e3o, a desumaniza\u00e7\u00e3o e a crueldade a que conduziu, algo que me perturba imenso. E que hoje vemos no mundo, na Ucr\u00e2nia, em Gaza, no Sud\u00e3o. Como se algu\u00e9m tivesse o direito de decidir sobre a vida humana, que \u00e9 a coisa mais preciosa. A guerra destr\u00f3i tudo, as pessoas deixam de ter o m\u00ednimo de solidariedade, de empatia.<\/p>\n<p>No caso de Angola, &#8220;desconseguiram&#8221; \u00e9 no sentido em que, depois de entrarem em guerra, os senhores da guerra n\u00e3o querem sair dela ou n\u00e3o sabem sair dela, porque aquilo transforma-se num neg\u00f3cio para eles. E \u00e9 intermin\u00e1vel. Esta \u00e9 a mais longa guerra civil de \u00c1frica, praticamente sem interrup\u00e7\u00e3o entre 1975 at\u00e9 2002 &#8211; houve os Acordos Bicesse, mas rapidamente as tr\u00e9guas eram minadas e recome\u00e7ava a guerra. S\u00e3o 26 anos de guerra civil somados aos quase 14 da luta pela liberta\u00e7\u00e3o nacional, de 1961 at\u00e9 1974.<\/p>\n<p>Portanto, o livro \u00e9 sobretudo uma cr\u00edtica \u00e0s for\u00e7as militares e aos seus l\u00edderes. Os l\u00edderes est\u00e3o de um lado, do outro est\u00e1 o povo, num sofrimento indiz\u00edvel. E o povo n\u00e3o \u00e9 culpado, \u00e9 a maior v\u00edtima.<\/p>\n<p>&#8220;UMA PESSOA FICA UMBILICALMENTE LIGADA AO LOCAL ONDE NASCE PARA O RESTO DA VIDA&#8221;<\/p>\n<p><strong>Nasceu e viveu em Angola at\u00e9 \u00e0 idade adulta. O que recorda dos tempos de crian\u00e7a, como era a sua vida?<\/strong><\/p>\n<p>Nasci no centro geod\u00e9sico de Angola, numa terra chamada Nova Sintra, hoje Catabola. O planalto central \u00e9 o planalto dos grandes espa\u00e7os, da luz, do cheiro das frutas, do cheiro da terra, da generosidade do povo angolano. Um espa\u00e7o que me marcou indelevelmente. Sinto que uma pessoa fica umbilicalmente ligada ao local onde nasce para o resto da vida.<\/p>\n<p>O meu pai tinha uma fazenda de sisal e depois dedicou-se ao com\u00e9rcio. A minha inf\u00e2ncia foi feliz. Lembro-me de ter uma bicicleta e de circular com ela por toda a parte, ia \u00e0s feiras, conversava com as pessoas das redondezas, muitas vezes mais velhas. Fiquei sempre fascinado pela fort\u00edssima cultura oral africana, as hist\u00f3rias passam de gera\u00e7\u00f5es para gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Lembra-se do momento em que tomou consci\u00eancia pol\u00edtica?<\/strong><\/p>\n<p>Aos nove anos de idade fui confrontado com um epis\u00f3dio que me marcou para a vida toda. Fui passear com a minha bicicleta, passei na zona do posto local e vi uma s\u00e9rie de pessoas acorrentadas pelos p\u00e9s e pelas m\u00e3os. Eram angolanos apanhados pelo chefe do posto e pelos sipaios nas aldeias, que depois eram carregados em camionetas para ir trabalhar nas ro\u00e7as de caf\u00e9 do norte de Angola.<\/p>\n<p>Senti que aquilo era profundamente errado e fui pedir explica\u00e7\u00f5es ao chefe de posto, ao meu pai, ao meu av\u00f4. Fui buscar comida e \u00e1gua a casa e protestei que n\u00e3o havia direito de tratarem as pessoas assim. Foi o meu primeiro ato pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Depois continuei. Quando cheguei \u00e0 Universidade de Luanda incorporei o movimento associativo, na altura tent\u00e1vamos fundar a associa\u00e7\u00e3o de estudantes, com todas as tens\u00f5es que isso criou com o regime colonial portugu\u00eas. Em 1974, cri\u00e1mos os Comit\u00e9s Amilcar Cabral, declaradamente para apoiar a independ\u00eancia de Angola.<\/p>\n<p>E escolhemos, entre os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional, o MPLA [Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola], que nos parecia na altura aquele que podia protagonizar uma melhor mudan\u00e7a para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;TINHA NOVE ANOS, FUI PASSEAR COM A MINHA BICICLETA, E VI UMA S\u00c9RIE DE PESSOAS ACORRENTADAS PELOS P\u00c9S E PELAS M\u00c3OS&#8221;<\/p>\n<p><strong>Quando olha para Angola, 50 anos depois, o que correu mal?<\/strong><\/p>\n<p>O balan\u00e7o triste que podemos fazer 50 anos depois da independ\u00eancia \u00e9 o &#8220;desconseguimos&#8221;. Eu estava no Largo 1.\u00ba de Maio, em Luanda, na noite m\u00e1gica do 11 de Novembro de 1975, quando \u00e0s zero horas o presidente Agostinho Neto proclamou a independ\u00eancia de Angola perante \u00c1frica e perante o mundo.<\/p>\n<p>As pessoas que estavam ali, e que representavam gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es de patriotas angolanos que lutaram pela independ\u00eancia, tinham o sonho de uma Angola diferente, mais igual e sem repress\u00e3o, que desse oportunidades de vida a todas as pessoas. Hoje, mais de 80% da popula\u00e7\u00e3o angolana continua abaixo da linha de pobreza e luta no dia a dia para sobreviver. Temos de nos perguntar que caminho foi este.<\/p>\n<p>A certa altura, h\u00e1 no livro um cap\u00edtulo que faz a descri\u00e7\u00e3o quase met\u00f3dica da destrui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;O soro da raz\u00e3o&#8221;, como lhe chamei. Numa das suas pe\u00e7as [&#8220;Hamlet&#8221;], Shakespeare escreve que h\u00e1 um m\u00e9todo na loucura. Tamb\u00e9m houve um m\u00e9todo na loucura angolana que levou \u00e0 guerra civil e \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Isso tamb\u00e9m est\u00e1 relacionado com a situa\u00e7\u00e3o em que o movimento de liberta\u00e7\u00e3o nacional se encontrava. Na altura, o MPLA estava dividido em tr\u00eas fa\u00e7\u00f5es, e depois existia a FNLA [Frente Nacional de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola] e a UNITA [Uni\u00e3o Nacional para a Independ\u00eancia Total de Angola]. Mesmo na noite do 11 de Novembro, ouv\u00edamos a deflagra\u00e7\u00e3o de morteiros nos arredores de Luanda, porque a FNLA tentava a todo o custo tomar a capital. O parto de Angola foi muito dif\u00edcil.<\/p>\n<p>&#8220;HOJE, OLHAMOS E MAIS DE 80% DA POPULA\u00c7\u00c3O ANGOLANA CONTINUA ABAIXO DA LINHA DE POBREZA E LUTA NO DIA A DIA PARA SOBREVIVER&#8221;<br \/>\n<strong>Podemos dizer que o livro \u00e9 autobiogr\u00e1fico?<\/strong><\/p>\n<p>Estou um bocadinho em v\u00e1rias personagens, sobretudo na parte do regresso \u00e0 inf\u00e2ncia. O livro contrasta tudo o que se est\u00e1 a passar com esses lugares da inf\u00e2ncia, o pa\u00eds que existia, e critica obviamente a quest\u00e3o da opress\u00e3o colonial. O regime colonial portugu\u00eas era de uma opress\u00e3o absoluta sobre o povo angolano, ao contr\u00e1rio do que dizem algumas correntes de historiadores em Portugal.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o era um colonialismo suave, como muito contam?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o existe colonialismo suave. Rejeito essa ideia, tive oportunidade de ver. \u00c9 evidente tamb\u00e9m n\u00e3o podemos esquecer que as For\u00e7as Armadas Portuguesas foram absolutamente decisivas, porque a luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional em Angola &#8211; como em Mo\u00e7ambique ou na Guin\u00e9 Bissau -, esteve ligada ao movimento de luta contra o fascismo em Portugal.<\/p>\n<p><strong>O livro \u00e9 apenas sobre a guerra civil de Angola ou \u00e9 sobre todas as guerras?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 sobre todas as guerras e o que elas provocam. Um dos grandes dilemas da esp\u00e9cie humana \u00e9 a quest\u00e3o da escolha. Temos livre-arb\u00edtrio, podemos optar entre o bem e o mal, mas muitas vezes escolhemos o mal. O livro tamb\u00e9m tem esta quest\u00e3o central, este conflito. Mas, se calhar, o instinto predador est\u00e1 inscrito na antiguidade africana, na antiguidade cl\u00e1ssica, basta ler Homero, &#8220;A Odisseia&#8221; ou &#8220;Il\u00edada&#8221;.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio que a guerra cria uma esp\u00e9cie de Estado de N\u00e3o Direito, de majestade do absurdo, absolvem-se comportamentos aberrantes, legitima-se a pior das crueldades. E quando se come\u00e7a a disseminar, o mal \u00e9 radical, torna os seres humanos sup\u00e9rfluos, desaparecem as \u00faltimas brasas de humanidade das pessoas. A animalidade toma conta destes guerreiros, como se fosse contagiosa, e o que se segue \u00e9 o desastre total. Como dizia Hesse, o homem \u00e9 o lobo do homem.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00c3O EXISTE COLONIALISMO SUAVE&#8221;<br \/>\n<strong>Sentiu isso na pele?<\/strong><\/p>\n<p>Na pele. No movimento associativo come\u00e7amos a contestar abertamente o regime colonial portugu\u00eas, a chamar a aten\u00e7\u00e3o para coisas como as desigualdades no tratamento da sa\u00fade, o elitismo no acesso ao ensino para, depois, desafiar os pressupostos do regime. E fomos amea\u00e7ados v\u00e1rias vezes pela PIDE [Pol\u00edcia Internacional e de Defesa do Estado], pelo reitor da universidade, mas nunca fomos presos. Quando o MPLA entra em Luanda, ficamos muito contentes, celebramos isso, continuamos a militar.<\/p>\n<p>&#8220;OS REGIMES TOTALIT\u00c1RIOS DESPEJAM A SUA RAIVA NO CORPO DOS PRESOS POL\u00cdTICOS&#8221;<br \/>\n<strong>Ironia das ironias, viria a ser preso exatamente pelo MPLA.<\/strong><\/p>\n<p>Pouco a pouco, a fratura dentro do MPLA, as diferentes correntes, come\u00e7ou a aprofundar-se, at\u00e9 \u00e0 tentativa de golpe de Estado de Nito Alves, a 27 de maio de 1977. N\u00e3o t\u00ednhamos nada a ver com Nito Alves, pelo contr\u00e1rio, mas o que o regime fez na altura foi prender praticamente todos os que tinham alguma dissid\u00eancia ou algum desacordo.<\/p>\n<p>Fui preso no dia 2 de dezembro de 1977, estive praticamente tr\u00eas anos na pris\u00e3o de S\u00e3o Paulo, em Luanda. Passei esse Natal na pris\u00e3o, sob tortura intensa, dia sim, dia n\u00e3o. A minha fam\u00edlia n\u00e3o sabia de nada, os meus pais tinham vindo para Portugal, pensaram que eu estava morto. Foi um per\u00edodo extremamente dif\u00edcil. O MPLA, nessa altura, instituiu um regime totalit\u00e1rio e os regimes totalit\u00e1rios despejam a raiva no corpo dos presos pol\u00edticos.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 tortura intensa?<\/strong><\/p>\n<p>As torturas eram consecutivas, muitas delas inomin\u00e1veis. Desde porem-me um torniquete met\u00e1lico \u00e0 volta da cabe\u00e7a e apertarem, a amararem-me as m\u00e3os atr\u00e1s das costas, todo nu, subirem-me a uma altura de tr\u00eas metros e deixarem-me cair completamente desprotegido no ch\u00e3o, ou estar completamente nu no meio de dez, doze, cartorze agentes da DISA [Dire\u00e7\u00e3o de Informa\u00e7\u00e3o e Seguran\u00e7a de Angola], todos a baterem-me at\u00e9 desmaiar ensanguentado. Consecutivamente. O meu \u00fanico objetivo era estar vivo no dia seguinte.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00c3O APRENDEMOS NADA COM OS ERROS, O QUE SAI DA GUERRA \u00c9 A DESTRUI\u00c7\u00c3O&#8221;<br \/>\n<strong>O que o fez sobreviver, em que pensava?<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m me perguntava isso e \u00e9 uma pergunta que esteve no centro destas reflex\u00f5es e deste livro, porque \u00e9 que a esp\u00e9cie humana se comporta desta maneira. Por isso digo, o livro passa-se em Angola, mas podia passar-se na Ucr\u00e2nia, no Sud\u00e3o, em Gaza &#8211; assistimos ao genoc\u00eddio do povo palestiniano quase com a complac\u00eancia da comunidade internacional. Como \u00e9 poss\u00edvel? Da guerra s\u00f3 sai destrui\u00e7\u00e3o e sofrimento. Mas n\u00e3o aprendemos nada com os erros.<\/p>\n<p>Um pensador, pol\u00edtico e escritor ingl\u00eas, Gilbert Chesterton, diz que o desprop\u00f3sito do mundo adv\u00e9m do facto de nunca nos perguntarmos para qu\u00ea. A dignidade \u00e9 a base da liberdade. Aqui, tudo isso est\u00e1 afastado.<\/p>\n<p>Nas situa\u00e7\u00f5es de tortura as pessoas est\u00e3o completamente isoladas. Na pris\u00e3o aprendi que a nossa mente \u00e9 fundamental, a mente humana \u00e9 obreira de milagres, o basti\u00e3o da resist\u00eancia. E comecei a escrever livros, a escrever poemas, tudo na minha cabe\u00e7a, a imaginar coisas, a revisitar os livros que li. Durante praticamente um ano a situa\u00e7\u00e3o foi dur\u00edssima, o objetivo era sempre estar vivo no dia seguinte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Nunca se perguntou por que motivo n\u00e3o o mataram?<\/strong><\/p>\n<p>Fizeram uma tentativa de fuzilamento. A DISA considerava-me um dos cabecilhas e queria que eu assinasse uma declara\u00e7\u00e3o a dizer que era agente da CIA. Muitas das torturas eram com o papel \u00e0 frente, que nunca assinei. Se tivesse assinado, era a minha senten\u00e7a de morte. Al\u00e9m de que n\u00e3o tinha nada a ver com a CIA, eram fantasias que eles fabricam para justificar tudo e mais alguma coisa.<\/p>\n<p>A \u00faltima tentativa que fizeram foi dizer-me que ia ser fuzilado. Chamaram-me \u00e0 noite &#8211; era sempre \u00e0 noite que as piores coisas sucediam, as execu\u00e7\u00f5es dos companheiros da pris\u00e3o, os mais diretamente ligados \u00e0 revolta do Nito Alves, a entrada e sa\u00edda de ambul\u00e2ncias &#8211; e pediram-me para escrever o meu &#8220;testamento&#8221;, como lhe chamaram.<\/p>\n<p>A \u00fanica coisa que escrevi, e que ainda os deixou mais furiosos, foi &#8220;A vida \u00e9 bela&#8221;. Vendaram-me os olhos, algemaram-me as m\u00e3os atr\u00e1s das costas e meteram-me num jeep ou numa ambul\u00e2ncia. Disseram-me que ia ser fuzilado e, pronto, \u00e9 o \u00faltimo dia da minha vida, pensei. Por isso digo muitas vezes &#8211; a minha fam\u00edlia n\u00e3o gosta de ouvir &#8211; que a minha vida depois disso \u00e9 quase um b\u00f3nus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Teve aquela sensa\u00e7\u00e3o de game over?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9, exatamente. Compenetrei-me que era o \u00faltimo dia, estava absolutamente calmo, a pensar nas coisas, sinto que me encostaram a algum s\u00edtio, ouvi come\u00e7aram a mexer nas culatras, mas nunca dispararam. Depois, contra todas as minhas expectativas, voltaram a pegar em mim, puseram-me no carro e voltaram para a pris\u00e3o. Quando cheguei \u00e0 minha cela perguntava-me: mas o que \u00e9 que se passou? Porque foi incr\u00edvel, at\u00e9 a simula\u00e7\u00e3o de fuzilamento fizeram para tentar que eu assinasse uma declara\u00e7\u00e3o completamente falsa.<\/p>\n<p><strong>Falou no isolamento, na sensa\u00e7\u00e3o de estar completamente s\u00f3. O que deve a diplomacia internacional fazer nestes casos, que ainda acontecem?<\/strong><\/p>\n<p>Penso que Portugal tem nesse aspecto p\u00e1ginas admir\u00e1veis na sua hist\u00f3ria, uma delas a quest\u00e3o de Timor Leste, em que o pa\u00eds se mobilizou todo, governo, autoridades, popula\u00e7\u00e3o. A press\u00e3o sobre o presidente Bill Clinton, nessa altura, depois sobre o governo da Indon\u00e9sia, funcionou de forma admir\u00e1vel. Tem de haver um compromisso colectivo com a dignidade e respeito pelos direitos humanos.<\/p>\n<p>Mas, infelizmente, o que estamos a ver hoje no mundo \u00e9 o recuo desses direitos. Agora temos o homem que est\u00e1 \u00e0 frente da na\u00e7\u00e3o mais poderosa do mundo, e que foi art\u00edfice da ordem liberal internacional depois da Segunda Guerra Mundial, a falsear e a violar essas regras. A mensagem que passa \u00e9 ben\u00e9fica para todos os autocratas do mundo.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, vemos na Europa uma grande crise, n\u00e3o s\u00f3 na Alemanha e na Fran\u00e7a, \u00e9 na Uni\u00e3o Europeia. Sou profundamente europe\u00edsta, o projeto europeu \u00e9 dos mais extraordin\u00e1rios alguma vez criados, e impediu a guerra na Europa. Mas com a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia pela R\u00fassia ela regressou.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, vemos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s institui\u00e7\u00f5es internacionais, sobretudo \u00e0s Na\u00e7\u00f5es Unidas, uma grande impot\u00eancia e falta de compromisso dos pa\u00edses, das lideran\u00e7as, com estes valores. A nossa civiliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 a viver um dos momentos mais perigosos da sua hist\u00f3ria depois da Segunda Guerra Mundial, tudo o que est\u00e1 no livro volta a assolar a esp\u00e9cie humana.<\/p>\n<p>E, spoiler alert, o livro n\u00e3o acaba bem&#8230;<\/p>\n<p>O livro n\u00e3o termina bem, porque nas \u00faltimas p\u00e1ginas, e embora a guerra j\u00e1 tivesse terminado, um morteiro cai no hospital em Pembe, onde nasce a beb\u00e9, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de esperan\u00e7a para o futuro, e ela morre.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 esta: qual \u00e9 o futuro de Angola &#8211; e o nosso tamb\u00e9m? Ser\u00e1 um futuro de esperan\u00e7a ou ser\u00e1 um futuro de pesadelo? N\u00e3o tenho uma resposta, mas sei que depende de n\u00f3s e daquilo que decidirmos fazer face a estas dificuldades.<\/p>\n<p><strong>Em rela\u00e7\u00e3o a Angola, Portugal continua a ter a\u00ed um papel, devia fazer mais?<\/strong><\/p>\n<p>Devia fazer muito mais, obviamente sempre em conson\u00e2ncia com o governo angolano. Mas a quest\u00e3o fulcral \u00e9 ajudar na educa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o salva a esp\u00e9cie humana. A cultura, como sabemos, vimos isso com os nazis, n\u00e3o \u00e9 garantia contra nada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 selvajaria que \u00e0s vezes toma conta de n\u00f3s, mas pode ajudar muito. Se houver um envolvimento a esse n\u00edvel, isso pode ser transformador.<\/p>\n<p>&#8220;A ESP\u00c9CIE HUMANA \u00c9 \u00daNICA, O RACISMO \u00c9 UMA DOEN\u00c7A&#8221;<br \/>\n<strong>Os portugueses s\u00e3o racistas?<\/strong><\/p>\n<p>Para responder a essa pergunta temos de nos p\u00f4r do ponto de vista das pessoas que podem ser v\u00edtimas desse racismo. E \u00e0s vezes, ao falar com as pessoas, percebemos que elas enfrentam muitas situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis no pa\u00eds a esse n\u00edvel. Portanto, acho que o pa\u00eds tem comportamentos racistas em muitos sectores. E temos de lutar contra o racismo, porque a esp\u00e9cie humana \u00e9 \u00fanica, o racismo \u00e9 uma doen\u00e7a, hostilizar s\u00f3 porque \u00e9 diferente \u00e9 uma estupidez. Vimos todos da mesma origem.<\/p>\n<p>H\u00e1 os estudos que o comprovam; h\u00e1 70 mil anos houve a erup\u00e7\u00e3o de um grande vulc\u00e3o na Indon\u00e9sia, o Toba, e a esp\u00e9cie humana ficou reduzida a 2.500 pessoas, que cabem num hotel moderno. Somos todos filhos desses 2.500. Se for ver o ADN da esp\u00e9cie humana, em 99% ele \u00e9 absolutamente id\u00eantico. Isto s\u00f3 torna ainda mais rid\u00edculos os argumentos racistas. Temos \u00e9 de trabalhar uns com os outros e evitar a demoniza\u00e7\u00e3o, temos de ser absolutamente contra isso, n\u00e3o aceitar o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Marcelo Rebelo de Sousa, como Ant\u00f3nio Costa, defenderam j\u00e1 v\u00e1rias vezes as repara\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. Concorda? Porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que quem teve a\u00ed uma posi\u00e7\u00e3o excelente, em que me revejo totalmente, foi a antiga ministra da Justi\u00e7a Francisca Van Dunem. Ela diz que mais importante que essas repara\u00e7\u00f5es \u00e9 termos um grande programa de ajuda \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 sa\u00fade desses pa\u00edses, investir nisso, incrementar essas rela\u00e7\u00f5es entre Portugal e Angola, Portugal e Mo\u00e7ambique.<\/p>\n<p>No livro &#8220;Porque Falham as Na\u00e7\u00f5es&#8221;, Daron Acemoglu e James Robinson identificam tr\u00eas fatores, um deles \u00e9 a qualidade das institui\u00e7\u00f5es. Ajudar a construir grandes institui\u00e7\u00f5es \u00e9 por isso importante e absolutamente fundamental. Acho que esse \u00e9 o caminho.<\/p>\n<p><strong>Regressou a Angola?<\/strong><\/p>\n<p>Sempre. Hoje n\u00e3o tenho l\u00e1 fam\u00edlia, mas tenho muitos amigos, vou l\u00e1 muitas vezes. E quero ver se este ano fa\u00e7o com a minha antiga turma da Engenharia de Minas da Universidade de Luanda um percurso pelo pa\u00eds todo. Vamos em setembro, a come\u00e7ar em Luanda, descer ao longo da costa, ir at\u00e9 Benguela, Lobito, depois Moss\u00e2medes, subir a Serra da Leba, por a\u00ed fora. E est\u00e1 no percurso ir \u00e0 minha terra, Nova Sintra, Catabola, no Bi\u00e9.<\/p>\n<p><strong>Tr\u00eas objetos que n\u00e3o podem faltar no seu dia-a-dia e porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Muito simples: um livro, uma folha de papel e uma caneta, porque eu gosto imenso de ler, de escrever, de estudar.<\/p>\n<p><strong>Teve ou tem alguma alcunha?<\/strong><\/p>\n<p>Os meus amigos em Angola chamavam-me &#8220;Ch\u00edbias&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Ch\u00edbias, porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Porque quando andava no liceu e na universidade em vez de chi\u00e7a, a palavra mais utilizada, dizia &#8220;Ch\u00edbias&#8221;. Ficou comigo.<\/p>\n<p><strong>O que o deixa mesmo irritado?<\/strong><\/p>\n<p>O racismo, os comportamentos de demoniza\u00e7\u00e3o do outro e a estupidez humana, contra todos os veredictos da realidade.<\/p>\n<p><strong>Acredita em Deus?<\/strong><\/p>\n<p>Respeito muito todas as religi\u00f5es, mas n\u00e3o tenho essa capacidade de f\u00e9. Responderia como uma vez o Stephen Hawking, o f\u00edsico Ingl\u00eas, respondeu numa entrevista extraordin\u00e1ria na BBC: &#8220;N\u00e3o tenho necessidade de Deus para explicar o mundo&#8221;.<\/p>\n<p>Categoria: Entrevista<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O antigo ministro da Economia de Portugal Ant\u00f3nio Costa Silva, relatou nesta quinta-feira, 30 de Janeiro de 2025, \u201c relata os horrores da guerra em livro\u201d, e lembra como foi torturado meses a fio na Cadeia de S\u00e3o Paulo, em Luanda,\u00a0 e s\u00f3 n\u00e3o foi fuzilado por um triz, este \u00e9 o lado oculto da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":797,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","om_disable_all_campaigns":false,"pagelayer_contact_templates":[],"_pagelayer_content":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[29],"tags":[],"class_list":["post-794","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevista"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Antonio-Costa-Silva-ex-ministro-da-econmia-de-portugal-e-Angolano-foto-4-05-02-2025-Club-K.jpg?fit=1024%2C683&ssl=1","blog_post_layout_featured_media_urls":{"thumbnail":["https:\/\/i0.wp.com\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Antonio-Costa-Silva-ex-ministro-da-econmia-de-portugal-e-Angolano-foto-4-05-02-2025-Club-K.jpg?resize=150%2C150&ssl=1",150,150,true],"full":["https:\/\/i0.wp.com\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Antonio-Costa-Silva-ex-ministro-da-econmia-de-portugal-e-Angolano-foto-4-05-02-2025-Club-K.jpg?fit=1024%2C683&ssl=1",1024,683,false]},"categories_names":{"29":{"name":"Entrevista","link":"https:\/\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/category\/entrevista\/"}},"tags_names":[],"comments_number":"0","wpmagazine_modules_lite_featured_media_urls":{"thumbnail":["https:\/\/i0.wp.com\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Antonio-Costa-Silva-ex-ministro-da-econmia-de-portugal-e-Angolano-foto-4-05-02-2025-Club-K.jpg?resize=150%2C150&ssl=1",150,150,true],"cvmm-medium":["https:\/\/i0.wp.com\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Antonio-Costa-Silva-ex-ministro-da-econmia-de-portugal-e-Angolano-foto-4-05-02-2025-Club-K.jpg?resize=300%2C300&ssl=1",300,300,true],"cvmm-medium-plus":["https:\/\/i0.wp.com\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Antonio-Costa-Silva-ex-ministro-da-econmia-de-portugal-e-Angolano-foto-4-05-02-2025-Club-K.jpg?resize=305%2C207&ssl=1",305,207,true],"cvmm-portrait":["https:\/\/i0.wp.com\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Antonio-Costa-Silva-ex-ministro-da-econmia-de-portugal-e-Angolano-foto-4-05-02-2025-Club-K.jpg?resize=400%2C600&ssl=1",400,600,true],"cvmm-medium-square":["https:\/\/i0.wp.com\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Antonio-Costa-Silva-ex-ministro-da-econmia-de-portugal-e-Angolano-foto-4-05-02-2025-Club-K.jpg?resize=600%2C600&ssl=1",600,600,true],"cvmm-large":["https:\/\/i0.wp.com\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Antonio-Costa-Silva-ex-ministro-da-econmia-de-portugal-e-Angolano-foto-4-05-02-2025-Club-K.jpg?resize=1024%2C683&ssl=1",1024,683,true],"cvmm-small":["https:\/\/i0.wp.com\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Antonio-Costa-Silva-ex-ministro-da-econmia-de-portugal-e-Angolano-foto-4-05-02-2025-Club-K.jpg?resize=130%2C95&ssl=1",130,95,true],"full":["https:\/\/i0.wp.com\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Antonio-Costa-Silva-ex-ministro-da-econmia-de-portugal-e-Angolano-foto-4-05-02-2025-Club-K.jpg?fit=1024%2C683&ssl=1",1024,683,false]},"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/794","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=794"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/794\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":798,"href":"https:\/\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/794\/revisions\/798"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-json\/wp\/v2\/media\/797"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=794"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=794"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=794"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}