{"id":3251,"date":"2026-04-23T18:59:51","date_gmt":"2026-04-23T17:59:51","guid":{"rendered":"https:\/\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/?p=3251"},"modified":"2026-04-23T19:15:19","modified_gmt":"2026-04-23T18:15:19","slug":"discurso-do-santo-padre-encontro-com-as-autoridade-a-sociedade-civil-e-o-corpo-diplomatico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/discurso-do-santo-padre-encontro-com-as-autoridade-a-sociedade-civil-e-o-corpo-diplomatico\/","title":{"rendered":"Discurso do Santo Padre-Encontro com as autoridade, a Sociedade civil e o Corpo diplom\u00e1tico"},"content":{"rendered":"<p>Senhor Presidente,<\/p>\n<p>Distintas Autoridades e membros do Corpo Diplom\u00e1tico,<\/p>\n<p>Senhoras e Senhores!<\/p>\n<p>\u00c9 para mim motivo de grande alegria estar entre v\u00f3s. Obrigado, Senhor Presidente, pelo convite para visitar Angola e pelas palavras de boas-vindas. Venho at\u00e9 v\u00f3s para encontrar o vosso povo, como um peregrino que procura os sinais da passagem de Deus por esta terra que Ele ama.<\/p>\n<p>Antes de prosseguir, gostaria de assegurar a minha ora\u00e7\u00e3o pelas v\u00edtimas das fortes chuvas e inunda\u00e7\u00f5es que atingiram a prov\u00edncia de Benguela, bem como expressar a minha proximidade com as fam\u00edlias que perderam suas casas. Sei tamb\u00e9m que v\u00f3s, angolanos, estais unidos em uma grande corrente de solidariedade em favor dos atingidos.<\/p>\n<p>Desejo encontrar-vos na gratuidade da paz e constatar que o vosso povo possui tesouros que n\u00e3o se vendem nem se roubam. Em particular, possui em si uma alegria que nem mesmo as circunst\u00e2ncias mais adversas conseguiram extinguir. Essa alegria, que tamb\u00e9m conhece a dor, a indigna\u00e7\u00e3o, as desilus\u00f5es e as derrotas, resiste e regenera-se entre aqueles que mantiveram o cora\u00e7\u00e3o e a mente livres do engano da riqueza. V\u00f3s sabeis bem que, demasiadas vezes, se olhou e se olha \u00e0s vossas terras para dar ou, mais frequentemente, para tirar algo. \u00c9 necess\u00e1rio quebrar esta cadeia de interesses que reduz a realidade e a pr\u00f3pria vida a uma mera mercadoria.<\/p>\n<p>A \u00c1frica \u00e9, para o mundo inteiro, uma reserva de alegria e esperan\u00e7a, que eu n\u00e3o hesitaria em definir como virtudes \u201cpol\u00edticas\u201d, porque os seus jovens e os seus pobres ainda sonham, ainda esperam, n\u00e3o se contentam com o que j\u00e1 existe, desejam reerguer-se, preparar-se para grandes responsabilidades, empenhar-se em primeira pessoa. Com efeito, a sabedoria de um povo n\u00e3o se deixa esmorecer por nenhuma ideologia e, realmente, o desejo de infinito que habita o cora\u00e7\u00e3o humano \u00e9 um princ\u00edpio de transforma\u00e7\u00e3o social mais profundo do que qualquer programa pol\u00edtico ou cultural. Estou aqui, entre v\u00f3s, ao servi\u00e7o das melhores for\u00e7as que animam as pessoas e as comunidades de que Angola \u00e9 um mosaico muito colorido. Desejo ouvir e encorajar aqueles que j\u00e1 escolheram o bem, a justi\u00e7a, a paz, a toler\u00e2ncia e a reconcilia\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, com milh\u00f5es de homens e mulheres de boa vontade que constituem a principal riqueza deste pa\u00eds, pretendo tamb\u00e9m invocar a convers\u00e3o dos que, escolhendo caminhos opostos, impedem o seu desenvolvimento harmonioso e fraterno.<\/p>\n<p>Car\u00edssimos, referia-me \u00e0s riquezas materiais nas quais, inclusivamente no vosso pa\u00eds, interesses prepotentes p\u00f5em as m\u00e3os. Quanto sofrimento, quantas mortes, quantas cat\u00e1strofes sociais e ambientais acarreta esta l\u00f3gica extrativista! Em todas as partes do mundo, vemos como ela, no fundo, alimenta um modelo de desenvolvimento que discrimina e exclui, mas que ainda pretende impor-se como o \u00fanico poss\u00edvel. O santo Papa Paulo VI, interpretando de forma penetrante as inquietudes do mundo juvenil, denunciava j\u00e1 h\u00e1 sessenta anos \u00abo aspeto senil \u2013 totalmente anacr\u00f3nico \u2013 de uma civiliza\u00e7\u00e3o comercial, hedonista, materialista, que ainda tenta passar por portadora do futuro\u00bb. E observava: \u00abContra esta ilus\u00e3o, a rea\u00e7\u00e3o instintiva de numerosos jovens, apesar dos seus excessos, expressa um valor real. Esta gera\u00e7\u00e3o aguarda outra coisa\u00bb (Exort. ap. Gaudete in Domino, VI). Gra\u00e7as a sabedorias muito antigas que alimentam o vosso pensar e o vosso sentir, v\u00f3s sois testemunhas de que a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 harmonia na riqueza da diversidade. Sempre que essa harmonia foi violada pela prepot\u00eancia de alguns, o vosso povo sofreu. Ele traz as cicatrizes tanto da explora\u00e7\u00e3o material como da pretens\u00e3o de impor uma ideia sobre outras. A \u00c1frica tem uma necessidade urgente de superar situa\u00e7\u00f5es e fen\u00f3menos de conflitualidade e inimizade, que dilaceram o tecido social e pol\u00edtico de tantos pa\u00edses, fomentando a pobreza e a exclus\u00e3o. Somente no encontro a vida floresce. No princ\u00edpio, est\u00e1 o di\u00e1logo. Ele n\u00e3o exclui a diverg\u00eancia, que contudo pode tornar-se conflito.<\/p>\n<p>O meu venerado predecessor, Papa Francisco, ofereceu-nos uma interpreta\u00e7\u00e3o inolvid\u00e1vel: \u00abPerante o conflito, alguns limitam-se a olh\u00e1-lo e passam adiante como se nada fosse, lavam-se as m\u00e3os para poder continuar com a sua vida. Outros entram de tal maneira no conflito que ficam prisioneiros, perdem o horizonte, projectam nas institui\u00e7\u00f5es as suas pr\u00f3prias confus\u00f5es e insatisfa\u00e7\u00f5es e, assim, a unidade torna-se imposs\u00edvel. Mas h\u00e1 uma terceira forma, a mais adequada, de enfrentar o conflito: \u00e9 aceitar suportar o conflito, resolv\u00ea-lo e transform\u00e1-lo no elo de liga\u00e7\u00e3o de um novo processo. \u00abFelizes os pacificadores\u00bb (Mt 5, 9)\u00bb (Exort. ap. Evangelii gaudium, 227). Angola pode crescer muito, se, em primeiro lugar, v\u00f3s, que detendes autoridade no pa\u00eds, acreditardes na multiformidade da sua riqueza. N\u00e3o temais as diverg\u00eancias, nem extingais as vis\u00f5es dos jovens e os sonhos dos idosos. Sabei, sim, gerir conflitos, transformando-os em caminhos de renova\u00e7\u00e3o. Colocai o bem comum acima do das partes, n\u00e3o confundindo nunca a vossa parte com o todo. Ent\u00e3o, a hist\u00f3ria dar-vos-\u00e1 raz\u00e3o, mesmo que, no imediato, alguns vos sejam hostis.<\/p>\n<p>Referi-me \u00e0 alegria e \u00e0 esperan\u00e7a como caracter\u00edsticas da vossa jovem sociedade. Normalmente, consideram-se sentimentos pessoais, privados. No entanto, elas s\u00e3o uma for\u00e7a intensa e expansiva, que contraria toda a resigna\u00e7\u00e3o e a tenta\u00e7\u00e3o de se fechar. Os d\u00e9spotas e os tiranos do corpo e do esp\u00edrito pretendem tornar as almas passivas e os \u00e2nimos tristes, propensos \u00e0 in\u00e9rcia, d\u00f3ceis e subjugados ao poder. Na tristeza, com efeito, ficamos \u00e0 merc\u00ea dos nossos medos e fantasmas, refugiamo-nos no fanatismo, na submiss\u00e3o, no ru\u00eddo medi\u00e1tico, na miragem do ouro, no mito identit\u00e1rio. O descontentamento, o sentimento de impot\u00eancia e de desenraizamento separam-nos, em vez de nos colocarem em rela\u00e7\u00e3o, difundindo um clima de estraneidade em rela\u00e7\u00e3o aos assuntos p\u00fablicos, desprezo perante a desgra\u00e7a alheia e a nega\u00e7\u00e3o de todo o tipo de fraternidade. Tal incongru\u00eancia desagrega as rela\u00e7\u00f5es fundamentais que cada um mant\u00e9m consigo mesmo, com os outros e com a realidade. Como tamb\u00e9m observou o Papa Francisco: \u00abA melhor maneira de dominar e avan\u00e7ar sem entraves \u00e9 semear o des\u00e2nimo e despertar uma desconfian\u00e7a constante, mesmo disfar\u00e7ada por detr\u00e1s da defesa de alguns valores. Usa-se hoje, em muitos pa\u00edses, o mecanismo pol\u00edtico de exasperar, exacerbar e polarizar\u00bb (Carta enc. Fratelli tutti, 15).<\/p>\n<p>Desta aliena\u00e7\u00e3o, liberta-nos a verdadeira alegria, que n\u00e3o por acaso a f\u00e9 reconhece ser um dom do Esp\u00edrito Santo. Como escreveu S\u00e3o Paulo, \u00abonde est\u00e1 o Esp\u00edrito do Senhor, a\u00ed est\u00e1 a liberdade\u00bb (2 Cor 3, 17). A alegria \u00e9, efetivamente, o que intensifica a vida e impulsiona para o campo aberto da socialidade: cada um se alegra fazendo frutificar as suas capacidades relacionais, percebendo que contribui para o bem comum e vendo-se reconhecido como pessoa \u00fanica e digna, numa comunidade de encontros que se multiplicam e ampliam o esp\u00edrito. A alegria sabe tra\u00e7ar trajet\u00f3rias mesmo nas regi\u00f5es mais sombrias de estagna\u00e7\u00e3o e ang\u00fastia. Car\u00edssimos, examinemos, pois, o nosso cora\u00e7\u00e3o, porque sem alegria n\u00e3o h\u00e1 renova\u00e7\u00e3o; sem interioridade n\u00e3o h\u00e1 liberta\u00e7\u00e3o; sem encontro n\u00e3o h\u00e1 pol\u00edtica; sem o outro n\u00e3o h\u00e1 justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Juntos, podeis fazer de Angola um projeto de esperan\u00e7a. A Igreja Cat\u00f3lica, cuja obra de servi\u00e7o ao pa\u00eds sei o quanto estimais, deseja ser fermento na massa e promover o crescimento de um modelo justo de conviv\u00eancia, livre das escravid\u00f5es impostas por elites com muito dinheiro e falsas alegrias. S\u00f3 juntos poderemos multiplicar os talentos deste povo maravilhoso, mesmo nas periferias urbanas e nas regi\u00f5es rurais mais remotas, onde pulsa a sua vida e se prepara o seu futuro. Eliminemos os obst\u00e1culos ao desenvolvimento humano integral, lutando e esperando com aqueles que o mundo rejeitou, mas que Deus escolheu. Foi assim, na verdade, que surgiu a nossa esperan\u00e7a: \u00abA pedra que os construtores rejeitaram veio a tornar-se pedra angular\u00bb (Sl 118, 22), Jesus Cristo, plenitude do homem e da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Luanda, aos 19 de Abril de 2026.<\/p>\n<p>Que Deus aben\u00e7oe Angola! Obrigado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Senhor Presidente, Distintas Autoridades e membros do Corpo Diplom\u00e1tico, Senhoras e Senhores! \u00c9 para mim motivo de grande alegria estar entre v\u00f3s. Obrigado, Senhor Presidente, pelo convite para visitar Angola e pelas palavras de boas-vindas. 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