{"id":3094,"date":"2026-04-02T17:30:54","date_gmt":"2026-04-02T16:30:54","guid":{"rendered":"https:\/\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/?p=3094"},"modified":"2026-04-02T17:32:09","modified_gmt":"2026-04-02T16:32:09","slug":"praticas-da-unita-sousa-jamba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/unita-angola.co.ao\/terrangolana\/praticas-da-unita-sousa-jamba\/","title":{"rendered":"Praticas da UNITA Sousa Jamba"},"content":{"rendered":"<p>Em Angola, h\u00e1 um reflexo antigo que raramente nos honra: o de vigiar o outro antes de o compreender. Entre os dois grandes partidos, a UNITA e o MPLA, esse reflexo enraizou-se at\u00e9 adquirir a consist\u00eancia de uma cultura. Em vez de escuta, caricatura; em vez de interpreta\u00e7\u00e3o, suspeita; em vez do esfor\u00e7o de perceber o universo moral e simb\u00f3lico do advers\u00e1rio, uma prontid\u00e3o quase mec\u00e2nica para o reduzir ao grotesco ou ao amea\u00e7ador.<\/p>\n<p>O mais triste \u00e9 que esse v\u00edcio n\u00e3o se limita \u00e0s franjas mais inflamadas da milit\u00e2ncia. Tamb\u00e9m alguns dos que se apresentam como intelectuais, homens e mulheres que deveriam elevar o debate e abrir espa\u00e7o \u00e0 complexidade, descem muitas vezes ao mesmo terreno empobrecido. Uns por ambi\u00e7\u00e3o de relev\u00e2ncia, outros por c\u00e1lculo pol\u00edtico, outros ainda por uma esp\u00e9cie de vaidade apressada que toma a simplifica\u00e7\u00e3o por lucidez. E assim, em vez de ajudarem o pa\u00eds a traduzir-se a si mesmo, engrossam o coro das m\u00e1s leituras.<\/p>\n<p>Foi isso que se viu, de forma quase exemplar, quando, numa actividade p\u00fablica, jovens apoiantes da UNITA apareceram envergando trajes associados ao passado hist\u00f3rico do movimento: o verde dos uniformes, o vermelho da boina. Bastou essa imagem para que, em certos c\u00edrculos, se instalasse um alarme desproporcionado, como se o pa\u00eds estivesse diante de um ensaio de remilitariza\u00e7\u00e3o, de uma reconstitui\u00e7\u00e3o clandestina de capacidades b\u00e9licas, de uma amea\u00e7a latente pronta a sair das sombras.<\/p>\n<p>Mas quem conhece, ainda que minimamente, a hist\u00f3ria \u00edntima da UNITA sabe que essa leitura \u00e9 pregui\u00e7osa. Movimentos com a longevidade da UNITA, com seis d\u00e9cadas de exist\u00eancia, n\u00e3o vivem apenas de programas pol\u00edticos, congressos e palavras de ordem. Vivem tamb\u00e9m de s\u00edmbolos, de rituais, de mem\u00f3ria encenada, de uma certa gram\u00e1tica do espect\u00e1culo que faz parte da sua identidade profunda. H\u00e1, naquele universo, uma tradi\u00e7\u00e3o do teatral, do visual e do evocativo que n\u00e3o pode ser lida literalmente por quem deseje compreend\u00ea-la com seriedade.<\/p>\n<p>Recordo-me de 1974. A minha falecida m\u00e3e vestia cal\u00e7as feitas de bandeiras da UNITA. N\u00e3o era um gesto de militarismo. Era um gesto de perten\u00e7a, de entusiasmo, de inser\u00e7\u00e3o afectiva numa causa que tamb\u00e9m se exprimia atrav\u00e9s do pano, da cor, da pose, da encena\u00e7\u00e3o p\u00fablica da esperan\u00e7a. A pol\u00edtica, nesses contextos, n\u00e3o se limitava ao discurso: fazia-se corpo, fazia-se indument\u00e1ria, fazia-se imagem.<\/p>\n<p>Essa inclina\u00e7\u00e3o para o teatral n\u00e3o nasceu do nada. Vinha tamb\u00e9m de um fundo protestante, no qual a representa\u00e7\u00e3o sempre desempenhou um papel importante na pedagogia da f\u00e9. Em muitos desses meios, ensinavam-se passagens b\u00edblicas encenando-as; a mem\u00f3ria transmitia-se pela dramatiza\u00e7\u00e3o; o sagrado ganhava carne em vozes, roupas, gestos e cenas reconstitu\u00eddas. Quando esse h\u00e1bito de representa\u00e7\u00e3o encontrou a cultura pol\u00edtica de um movimento de liberta\u00e7\u00e3o e de resist\u00eancia, com a sua dramaturgia de massas e a sua cren\u00e7a no canto, na marcha e no gesto colectivo como formas de consolidar perten\u00e7a, o resultado foi uma est\u00e9tica pr\u00f3pria, uma forma particular de celebrar, recordar e mobilizar.<\/p>\n<p>Lembro-me, por isso, com nitidez, do que via em Jamba e que me fascinava. Havia encena\u00e7\u00f5es do come\u00e7o da luta. Surgiam homens de cal\u00e7\u00f5es, botas gastas, roupas improvisadas; alguns traziam lan\u00e7as, outros arcos e flechas, outros ainda instrumentos rudimentares de combate. A ideia era clara: mostrar o ponto de partida, a precariedade inicial, a nudez quase b\u00edblica dos primeiros passos, para depois tornar vis\u00edvel a transforma\u00e7\u00e3o do movimento ao longo do tempo. Era uma narrativa dramatizada da evolu\u00e7\u00e3o: dos combatentes quase descal\u00e7os aos homens treinados, organizados, equipados, capazes de operar com meios muito mais sofisticados.<\/p>\n<p>E conv\u00e9m diz\u00ea-lo sem evasivas: durante a guerra, a UNITA teve, de facto, v\u00e1rias forma\u00e7\u00f5es e agrupamentos destinados ao esfor\u00e7o militar, alguns deles pouco conhecidos do grande p\u00fablico. Houve unidades especializadas, houve comandos, houve, inclusivamente, uma componente paraquedista. Eram estruturas pr\u00f3prias de um movimento em guerra, obrigado a adaptar-se ao terreno, ao inimigo e \u00e0 necessidade de sobreviv\u00eancia. Isso existiu. N\u00e3o \u00e9 del\u00edrio, n\u00e3o \u00e9 fantasia. Mas, precisamente por isso, importa distinguir com rigor: com a constitui\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas Angolanas unificadas, extinguiu-se qualquer bra\u00e7o armado aut\u00f3nomo da UNITA. O que existia enquanto estrutura militar separada deixou de existir. O que hoje se v\u00ea, em ocasi\u00f5es como aquela que provocou tanto ru\u00eddo, n\u00e3o \u00e9 o ressurgimento de uma for\u00e7a b\u00e9lica escondida. \u00c9 reconstitui\u00e7\u00e3o. \u00c9 mem\u00f3ria organizada. \u00c9 evoca\u00e7\u00e3o c\u00e9nica. \u00c9 aquilo a que, durante muito tempo, se chamou grupo de agita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso, quando hoje se v\u00eaem certos trajes, certas marchas, certas encena\u00e7\u00f5es, o m\u00ednimo que se exige de um observador s\u00e9rio \u00e9 prud\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 leg\u00edtimo saltar da imagem para a acusa\u00e7\u00e3o, do s\u00edmbolo para o p\u00e2nico, da mem\u00f3ria para a fantasia conspirativa. O que ali se mostra \u00e9 menos uma capacidade militar do que uma mem\u00f3ria dramatizada do passado; menos uma amea\u00e7a presente do que uma linguagem herdada; menos um gesto de guerra do que uma coreografia identit\u00e1ria que sobreviveu ao tempo. E quem se julga intelectualmente mais apetrechado tem uma responsabilidade acrescida: perguntar primeiro, escutar, procurar contexto, tentar entender por dentro aquilo que, visto de fora e \u00e0 pressa, facilmente se deforma.<\/p>\n<p>H\u00e1, nesse coment\u00e1rio apressado, uma superioridade quase sempre mal fundada, incapaz de respeitar as tradi\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas de movimentos hist\u00f3ricos complexos. Movimentos que atravessaram sessenta anos acumulam camadas. N\u00e3o s\u00e3o leg\u00edveis \u00e0 superf\u00edcie. T\u00eam mitos, rituais, h\u00e1bitos, teatralidades, gestos herdados, modos pr\u00f3prios de inscrever o passado no presente. Quem quiser compreend\u00ea-los ter\u00e1 de aceitar esse trabalho paciente e exigente de decifra\u00e7\u00e3o. Sem ele, o que se produz n\u00e3o \u00e9 an\u00e1lise: \u00e9 condena\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica, especula\u00e7\u00e3o selvagem, pobreza de leitura disfar\u00e7ada de clarivid\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Angola, h\u00e1 um reflexo antigo que raramente nos honra: o de vigiar o outro antes de o compreender. Entre os dois grandes partidos, a UNITA e o MPLA, esse reflexo enraizou-se at\u00e9 adquirir a consist\u00eancia de uma cultura. 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