Reconhecimento dos Pais da Nação não é um Acto de Perdão, Mas de Mérito

Entrevista

O Reconhecimento dos Pais da Nação não é um Acto de Perdão, Mas de Mérito

Integra da entrevista do Presidente da UNITA Adalberto Costa Júnior concedida na manhã desta quarta-feira, 15 de Outubro de 2025, à Rádio Despertar depois do discurso de Estado da Nação, pelo Presidente João Lourenço, na abertura do ano parlamentar.

O que posso dizer, em primeiro lugar, é que este anúncio representa, na prática, uma reafirmação do que sempre dissemos. Os pais da Nação são, efetivamente, aqueles que lutaram, lideraram e tornaram possível a independência de Angola. O reconhecimento pela independência deve ser sempre um acto de mérito, nunca um acto de perdão.

O próprio Presidente João Lourenço, no discurso de hoje, fala “no espírito do perdão”. Mas perdoar os pais da Nação? Isso não faz sentido. O reconhecimento aos fundadores da pátria deve ser igual e justo para todos, não uma concessão, muito menos uma forma de perdão.

𝐄 𝐡𝐚́ 𝐚𝐪𝐮𝐢 𝐮𝐦 𝐩𝐨𝐧𝐭𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐝𝐞𝐯𝐞 𝐬𝐞𝐫 𝐥𝐞𝐦𝐛𝐫𝐚𝐝𝐨: 𝐚 𝐦𝐞𝐬𝐦𝐚 𝐛𝐚𝐧𝐜𝐚𝐝𝐚 𝐩𝐚𝐫𝐥𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚𝐫 𝐪𝐮𝐞 𝐡𝐨𝐣𝐞 𝐚𝐩𝐥𝐚𝐮𝐝𝐢𝐮 𝐞𝐬𝐭𝐞 𝐚𝐧𝐮́𝐧𝐜𝐢𝐨, 𝐞́ 𝐚 𝐦𝐞𝐬𝐦𝐚 𝐪𝐮𝐞 𝐯𝐨𝐭𝐨𝐮 𝐜𝐨𝐧𝐭𝐫𝐚 𝐚 𝐩𝐫𝐨𝐩𝐨𝐬𝐭𝐚 𝐝𝐞 𝐥𝐞𝐢 𝐪𝐮𝐞 𝐫𝐞𝐜𝐨𝐧𝐡𝐞𝐜𝐢𝐚 𝐭𝐨𝐝𝐨𝐬 𝐨𝐬 𝐩𝐚𝐢𝐬 𝐝𝐚 𝐢𝐧𝐝𝐞𝐩𝐞𝐧𝐝𝐞̂𝐧𝐜𝐢𝐚. 𝐈𝐬𝐬𝐨 𝐫𝐞𝐯𝐞𝐥𝐚 𝐟𝐚𝐥𝐭𝐚 𝐝𝐞 𝐜𝐨𝐞𝐫𝐞̂𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐞 𝐬𝐞𝐫𝐢𝐞𝐝𝐚𝐝𝐞.

No fundo, a pressão da sociedade e das forças políticas, incluindo a UNITA, teve resultado. Mas foi um percurso desnecessário, cheio de recusas e contradições. A pergunta é: para quê tanto desgaste, se o desfecho era inevitável?

𝐍𝐨́𝐬 𝐧𝐮𝐧𝐜𝐚 𝐦𝐮𝐝𝐚́𝐦𝐨𝐬 𝐝𝐞 𝐩𝐨𝐬𝐢𝐜̧𝐚̃𝐨. 𝐐𝐮𝐞𝐦 𝐦𝐮𝐝𝐨𝐮 𝐟𝐨𝐢 𝐨 𝐏𝐫𝐞𝐬𝐢𝐝𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐝𝐚 𝐑𝐞𝐩𝐮́𝐛𝐥𝐢𝐜𝐚 𝐞 𝐨 𝐌𝐏𝐋𝐀. 𝐄, 𝐚𝐢𝐧𝐝𝐚 𝐚𝐬𝐬𝐢𝐦, 𝐞́ 𝐩𝐨𝐬𝐢𝐭𝐢𝐯𝐨 𝐪𝐮𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐚𝐥𝐠𝐮𝐞́𝐦 𝐭𝐞𝐦 𝐚 𝐜𝐨𝐫𝐚𝐠𝐞𝐦 𝐝𝐞 𝐜𝐨𝐫𝐫𝐢𝐠𝐢𝐫 𝐮𝐦 𝐞𝐫𝐫𝐨. 𝐌𝐚𝐬 𝐧𝐚̃𝐨 𝐚𝐜𝐞𝐢𝐭𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐚 𝐢𝐝𝐞𝐢𝐚 𝐝𝐞 𝐩𝐞𝐫𝐝𝐚̃𝐨, 𝐨 𝐫𝐞𝐜𝐨𝐧𝐡𝐞𝐜𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐝𝐨𝐬 𝐟𝐮𝐧𝐝𝐚𝐝𝐨𝐫𝐞𝐬 𝐝𝐚 𝐍𝐚𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐞́ 𝐮𝐦 𝐝𝐞𝐯𝐞𝐫 𝐡𝐢𝐬𝐭𝐨́𝐫𝐢𝐜𝐨, 𝐧𝐚̃𝐨 𝐮𝐦𝐚 𝐛𝐞𝐧𝐞𝐯𝐨𝐥𝐞̂𝐧𝐜𝐢𝐚.

Sobre o discurso do Estado da Nação, continuo a considerar que este modelo é cansativo, longo e pouco prático. O Presidente falou muito, mas não trouxe soluções concretas. Não falou da fome, nem da extrema pobreza, nem do desemprego juvenil, nem da corrupção que corrói as instituições. Falou de um país que, muitas vezes, não é o que o cidadão vive.

As autarquias continuam esquecidas, apesar de serem essenciais para aproximar o poder das populações. E a justiça, elogiada no discurso, é hoje vista com descrédito e desconfiança pela maioria dos angolanos.

Portanto, foi um discurso monocórdico, distante do país real. Angola precisa de um rumo mais inclusivo, mais verdadeiro, com diálogo e coerência. E, nos 50 anos da independência, seria de esperar um gesto simbólico da Assembleia Nacional,

um grande debate nacional, um momento de unidade, mas isso não aconteceu.

Há, portanto, muito a corrigir. E o essencial é que caminhemos com verdade, coerência e transparência, para que o destino de Angola seja construído por todos os seus filhos.

Muito obrigado.

*ENTREVISTA À RÁDIO COMERCIAL DESPERTAR

 

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