Isaías Henriques Ngola Samakuva

Presidente da UNITA 2003/2019

Filho de Henrique Ngola Samakuva e de Rosília Ani Ulundu, nasce aos 8 de Julho de 1946 em Silva Porto-Gare (actual… Kunje) -Bié quando seu pai trabalhava como funcionário público no Posto Administrativo dessa localidade, profissão que abandona cansado de assistir à várias injustiças de que muitos dos seus compatriotas sem culpas formadas eram vítimas. À pedido dos missionários parte para a Missão Evangélica de Camundongo em 1950 onde é professor e posteriormente em 1953 nomeado para o curso de teologia no seminário do Dondi onde é ordenado pastor evangélico. Em 1954 regressa à missão Evangélica da Chissamba – Bié, donde é originário, para o exercício das suas funções como pastor. Isaías Samakuva cresce assim num ambiente cristão.

Faz o ensino primário nas missões Evangélicas de Camundongo, e Chissamba -Nova Sintra – Bié.

Em 1961 – faz a Admissão para o Ensino Secundário e em 1962 entra na Escola Técnica do Instituto do Dôndi – Bela Vista: aluno brilhante passa o exame do primeiro ciclo em 1964 em Silva Porto/Kuíto e matricula-se na Escola Industrial e Comercial do Bié. Já quase ao fim do curso comercial ingressa no exército português, suspendendo assim os estudos em 1967… Depois da recruta na então Nova Lisboa – Huambo, faz grande parte do serviço militar em Camabatela, na Zona Militar Norte.

Em 1969 passa à disponibilidade, regressa à Silva Porto e conclui o seu curso. Parte, no ano seguinte para o Huambo. Como sempre, ávido de saber, continua com os seus estudos e ao mesmo tempo trabalha na Mutualidade do Huambo e posteriormente no Instituto de Trabalho, movido pela vontade de ajudar financeiramente os seus pais e participar na educação dos seus irmãos mais novos que deviam todos obter uma formação completa para serem úteis à sociedade. Sua palavra de ordem era – estudar; estudar. “Ou estudam e têm um futuro digno, ou brincam e amanha serão todos miseráveis”, sonho frustrado temporariamente pela guerra prolongada que se abate sobre o país.

Ingresso na UNITA

Em 1974 depois da revolução do 25 de Abril, é simpatizante activo da UNITA. Um ano mais tarde é funcionário do Ministério de Trabalho do então Governo de Transição saído do Acordo de Alvor.

Em 1976 por convicção própria, mas também por conveniência, dada a insegurança política que se instala para os não apoiantes do MPLA, retira-se para as matas e junta-se aos seus partidários numa das bases do Kwanza, na então Região Militar 25, donde parte transferido para a Região 45, onde ocupa o cargo de Chefe de Gabinete do comando daquela Região. Permanece nessa região até 1978, altura que é transferido para a Região 11 a fim de chefiar/ integrar o Gabinete presidencial. Meses depois, a Direcção do Partido estabelece-se no Kuando Kubango. Samakuva é nomeado Responsável da Logística e instala-se nas áreas do Samba Kaliki -Kuando Kubango donde coordena a logística para as diversas regiões sob controlo da UNITA.

Em 1979 é transferido para o Rundu (Bambi). Aqui é responsável pela logística e representante da UNITA junto da África do Sul. É nessa altura que contrai matrimónio com Albertina Inês Satuala Samakuva (hoje são pais de 5 filhos).

Durante o exercício das suas funções no Rundu confirma-se a sua integridade e determinação a favor da luta pela Liberdade e Dignidade. Revelaram-se as suas qualidades de quadro honesto e desinteressado, diplomata exemplar, que não só mereceu confiança da direcção do partido, como também cativa o respeito e amizade, não apenas dos seus colaboradores, mas igualmente dos seus interlocutores Sul-Africanos e de todos quantos por uma ou por outra razão fossem levados a aproximar-se dele ou passassem algum tempo na sua base. O LSB (Lima, Sierra, Bravo – de Lissumbissa seu nome de guerra para uns e SAM – de S para outros), é amigo de toda a gente, ausculta todos e dentro das suas possibilidades presta ajuda quando necessária. Alias, esta é e foi sempre sua qualidade (extensiva aos irmãos). Já no Huambo e Bié onde viveu, o número de amigos não cessava de aumentar e os seus pais recebiam incessantemente felicitações e louvores de pessoas que muitas vezes preferiam hospedar-se em sua casa.

Do Bambi também dependia grande parte da provisão material e alimentar do exército e das populações da retaguarda, o reabastecimento dos hospitais que velavam pela saúde física do povo espalhado pelas terras livres de Angola sob o controle da UNITA. Também se desenvolvia no Bambi grande parte da actividade e as movimentações diplomáticas do Partido cuja coordenação dependia do seu responsável. Membro do Comité Central e suplente do Bureau Político a partir da 12ª Conferência Anual, Samakuva faz idas e vindas à Jamba onde participa às reuniões daqueles dois órgãos do Partido.

Em 1985 Samakuva é transferido para a base logística de Likuwa donde alguns meses depois é transferido para a Jamba (Quartel General da UNITA) nomeado director do Gabinete do Presidente, Secretário Permanente e Coordenador dos gabinetes do Partido junto da presidência, funções que exerce até 1989 quando é nomeado representante do Partido na Inglaterra. Em Londres continua com afinco a explicar, difundir e defender os princípios que norteiam a UNITA e a luta pela liberdade e dignidade dos angolanos.


A actividade na Comissão Conjunta

Em 1992 é indigitado para integrar a delegação para as negociações com o governo junto da ONU e a Troika de observadores (Portugueses, Russos e Americanos). Iniciadas em Addis-Abeba, em 1993, as negociações prosseguem em Abidjan, e Lusaka onde terminam em 1994 com a assinatura do Acordo mais conhecido por “Protocolo de Lusaka”.


Samakuva é então designado Chefe da Delegação da UNITA na Comissão Conjunta junto da Troika e da ONU que vai viabilizar a aplicação do Protocolo de Lusaka em Luanda.
Em 1997 forma-se o GURN (Governo de Unidade e Reconciliação Nacional). Samakuva continua à testa da representação da UNITA e a implementação do processo de paz e de reconciliação nacional continuam o seu curso.

A sua simplicidade, dedicação e empenho, a sua vocação de servir o seu próximo (o angolano em geral e a UNITA em particular) à busca duma reconciliação e paz duradouras para o país e o seu rigor no cumprimento da missão que era a sua, revelaram ao mundo amigo e inimigo, nacionais e estrangeiros características de um dirigente e uma personalidade com quem o país podia contar.

De salientar que repetidas vezes na imprensa internacional, não faltaram publicações de afirmações de certas figuras que de perto ou de longe seguiam o processo de paz angolano e que não se coibiram de louvar o perfil de Samakuva.

Ruptura da aplicação do Protocolo de Lusaka e partida de Luanda

Em 1998 depois de uma série de irregularidades, incidentes, intimidações de vária natureza e constatada a eminência da ruptura do processo de paz com consequências imprevisíveis, Samakuva, que tinha as férias já programadas junto da família em Londres, decide partir. A sua viagem fica interrompida ai, pois que as autoridades Britânicas negam-lhe a entrada e acaba por ficar em França, privado de ver a família que bem perto dele se encontrava.

Actividade em França

Forçado à manter-se na discrição por conveniência do país acolhedor que temia represálias em relação aos seus interesses económicos…, não cede à estratégia do silêncio que agradava aos que pretendem monopolizar a gestão do país em detrimento do sofrimento de todo um povo.
Foi assim que sempre que as oportunidades se lhe apresentassem, lá onde estivesse procurava passar a mensagem da resistência do povo angolano. Muitas delegações de vários países que buscavam uma outra versão da situação angolana fora da que era divulgada com o único objectivo de destruir tudo que representasse a oposição, foram repetidas vezes ao seu encontro, porquanto encontraram nele um interlocutor válido, tendo em consideração as sanções impostas à UNITA pela ONU que inviabilizavam todo o contacto com a direcção do Partido no interior do país.
No mesmo ano volta para a carteira. Desta vez opta pelas Ciências político-sociais na “Open University” e simultaneamente inscreve-se no Instituto de Relações Internacionais onde faz o Curso de Relações Internacionais…

Em 2000 é indicado a chefiar a Missão Externa órgão que se ocupa da coordenação da actividade diplomática das representações no estrangeiro, função que exerceu até ao seu regresso à Luanda.

Direcção decapitada

Em Fevereiro de 2002 a direcção da UNITA é decapitada no interior do país. Imediatamente em conjunto com os seus companheiros no exterior procura por todos os meios possíveis contactar com os responsáveis sobreviventes. Ao mesmo tempo enviam uma mensagem de encorajamento à todos os militantes e simpatizantes da UNITA. A sua preocupação era manter a chama do Partido viva, a fim de dar continuidade à obra deixada por aqueles que em vida defenderam com honra os interesses dos mais pequenos, pobres sem voz!

Regresso à Angola

Face à esta situação, Samakuva considera terminado o seu tempo fora do país. Decide voltar à terra natal para de perto poder dar o seu contributo na reorganização do Partido e na democratização do país que é inevitável.
Vozes se levantam, sugerindo a sua eventual candidatura à presidência do Partido. Para ele, isso não significa nada, “nunca pensei nisso”, dizia! Existe no Partido, uma hierarquia e órgãos competentes (Comité Permanente e Comissão Política) que em momentos de crise como este devem gerir o Partido, conduzir os destinos dos seus partidários até à realização de um Congresso Extraordinário que deve eleger um novo dirigente. A grande preocupação e prioridade do momento, é a mobilização de ajuda internacional, para salvar milhares de angolanos que vão perecendo miseravelmente nas matas de Angola.

A pressão aumenta. Incessantemente recebe mensagens e correspondência de patriotas que o persuadem a apresentar a sua candidatura. Resiste por algum tempo, mas acaba por ceder, pois reconhece ser uma responsabilidade. Torna a notícia pública através da imprensa nacional e internacional, deixando assim a decisão aos delegados ao IX Congresso que exercendo o seu direito do voto reafirmam essa necessidade histórica.

Em 2000, foi indigitado chefe da missão externa da UNITA e, na sequência da morte de Jonas Savimbi, em combate, a 22 de Fevereiro de 2002, regressou a Angola para discutir o cessar-fogo no âmbito do Protocolo de Lusaka.