Um exercício sobre como se movem as sociedades, e Angola não pode ser uma excepção. Como surgiram ou se criaram as sociedades? Tudo remonta à origem do Homem, de Adão e Eva, passando pela Arca de Noé, Abraão, Isaac, Jacó e, na nossa era, Jesus de Nazaré.
O Homem é teimoso! Mesmo com tantas experiências mostradas e demonstradas, continua a cometer os mesmos erros, a tentar reinventar o que já foi criado ou estabelecido na Magna Carta Universal, a Bíblia. Jesus, vivendo na Palestina, inspirou a forma como as sociedades deveriam se organizar e conviver, sempre dentro da sociabilidade de grupos sociais variados, com crenças, usos e costumes adaptados aos tempos e circunstâncias. É dentro dessa evolução que, ao longo dos séculos, surgiram diversas formas de convivência: do feudalismo à era industrial, do socialismo à democracia, do comunismo a tantas outras variantes, sempre na busca por uma melhor forma de vida social.
O século XX é o mais relevante para esta análise. Com ele, vieram muitos “ismos”: socialismo, capitalismo, imperialismo, marxismo etc. Quando a maioria dos países africanos conquistou a independência, estava em vigor a Guerra Fria, dividindo o mundo em zonas de influência: o bloco socialista, liderado pelos russos, e o bloco ocidental, sob os americanos. Dessa divisão surgiram os conceitos de reacionário e revolucionário, de direita e esquerda. Com o tempo, apareceram também a extrema-direita, a extrema-esquerda e o centro, todos componentes de movimentos sociais.
A distinção entre direita e esquerda remonta da Revolução Francesa de 1789, quando os apoiadores de mudanças radicais sentavam-se à esquerda do rei, enquanto os que defendiam apenas algumas reformas estavam à sua direita. A Revolução Francesa também viu a ascensão dos jacobinos e girondinos. Os jacobinos, liderados por Robespierre, eram radicais e buscavam mudanças profundas e rápidas, enquanto os girondinos eram mais moderados. Esse período culminou no “Terror”, com execuções em massa e instabilidade política. O mundo cresceu dentro dessa dinâmica, e os povos foram adaptando esses conceitos às suas realidades.
No caso de Angola, o problema fundamental reside no colonialismo, na forma como foi conduzida a descolonização e no papel das elites angolanas. A colonização portuguesa estruturou a sociedade em pelo menos três classes: o colono, o assimilado e o indígena. Alguns estudiosos consideram os mestiços uma quarta classe intermediária. As desigualdades entre esses grupos influenciaram a forma como o processo de descolonização ocorreu.
Embora Portugal tenha negociado a descolonização com os três principais movimentos de libertação (FNLA, MPLA e UNITA), a verdade é que, em novembro de 1974, já havia acordado em Argel que entregaria o poder ao MPLA, impedindo a realização de eleições e violando os Acordos de Alvor. A direção do MPLA, sob Agostinho Neto, traiu o espírito desses acordos. Portugal tinha força militar suficiente para garantir a implementação dos Acordos de Alvor, e quem se atrevesse teria uma resposta como demonstrado pelo General Almendra quando as FAPLA tentaram contestá-los.
As Elites Angolanas – na lógica marxista, a burguesia e o proletariado são as classes-chave para a revolução. Em colônias como Angola, essa divisão se traduz na elite letrada. Quando os movimentos de libertação surgiram, muitos jovens angolanos já possuíam conhecimentos que lhes permitiam questionar o futuro do país. Assim, formaram-se três principais movimentos: UPA/FNLA, MPLA e UNITA.
A FNLA teve um papel crucial na luta de libertação, defendendo “Liberdade e Terra”. No entanto, o foco desta análise é entender por que Angola permanece em crise, mesmo após 23 anos de paz e aqui a figura principal é o MPLA.
A Revolução Francesa é um exemplo relevante. Quando a monarquia caiu, os revolucionários jacobinos, inicialmente defensores do povo, passaram a oprimi-lo, instaurando um regime de terror entre 1793 e 1794. Esse período, conhecido como “Termidor”, trouxe as palavras de ordem: liberdade, igualdade e fraternidade, ora, três palavras-chave que depois começaram a ser violadas pelos autores. Agora veja-se até que ponto esses conceitos se aplicam à Angola de hoje?
Os partidos que lutaram pela independência ainda cumprem seus propósitos originais? O governo do MPLA segue uma filosofia correcta ou reproduz os padrões denunciados por Viriato da Cruz? Em sua carta de 31 de janeiro de 1963, Viriato alertava que certos grupos dentro do MPLA visavam apenas se beneficiar do poder e formar novas castas privilegiadas, substituindo os colonizadores portugueses sem mudar a realidade das massas. Esse alerta está registrado em Um amplo movimento, vol. III (1963-1964), Itinerário do MPLA, através de documentos de Lúcio Lara, “Carta de V. Cruz a Zé Miguel, Borges, Santos, Amaro e Luís Miguel” que transcrevendo dizia:
“Qual é, no fundo, a política desse grupo?
Esse grupo é formado por indivíduos que para se sentirem completamente livres bastar-lhes-á participar, na Angola independente, do poder político e gozar de grandes facilidades para obter os meios para levar uma vida privilegiada. Enquanto que para o povo poder sentir que a independência melhorou realmente a sua vida, será necessário tomar medidas profundas na Angola independente – para os indivíduos do referido grupo sentirem que a independência melhorou realmente a sua vida bastará que se tomem, amanhã em Angola, algumas medidas superficiais ou parciais.
Além disso, os indivíduos do referido grupo sabem muito bem que as independências em África, de uma maneira quase geral, têm significado, na realidade, a promoção de uma elite para os postos de direcção da nação, enquanto que as massas pouco ou nada beneficiam com as independências. Pode-se dizer, em resumo, que essas independências têm apenas criado castas privilegiadas nativas, que como os antigos colonos, passam por sua vez, a explorar e a oprimir o povo. A este fenómeno que, actualmente, alguns estudiosos dos jovens Estados independentes vêm chamando de ‘colonialismo de classe’ – o ‘colonialismo’ das castas privilegiadas nativas.
Os indivíduos do referido grupo sabem bem que a maneira mais fácil para eles amanhã fazerem parte de uma casta privilegiada angolana consiste em estarem, hoje, à frente de um partido político. Como eles não podiam fundar um partido que tivesse sucesso, resolveram ‘tomar de assalto’ (como dizia o vigarista do Viana) o nosso Movimento.
Não foi por acaso que alguns médicos, que deveriam servir melhor o povo com a ciência médica , resolveram abandonar os refugiados doentes no Congo para vir para o exterior fazer treinos militares. Quem acredita, porventura, que cinco ou seis médicos com treinos militares irão modificar o curso da guerra em Angola? Onde está provado que um médico militar seja melhor soldado que um cidadão sem formação universitária? De 1963, aos dias da independência o que se tem, às vezes , as sociedades minimizam o passado, bom ou mau, deve ser sempre de lição.”
A UNITA surgiu em 1966 com uma visão diferente, baseando-se no estudo de diversas experiências internacionais. O Presidente Fundador Jonas Savimbi defendia que um partido só deveria existir se tivesse uma ideia forte. Para ele, a pátria e a terra eram ideias fortes, precedendo qualquer ideologia política. O nacionalismo, para ser verdadeiro, deveria partir do amor às origens e ao próprio povo.
A UNITA entra em acção já com uma visão inovadora, fruto de estudos de diversas concepções de outras sociedades. O Presidente Fundador, abordando vários aspectos da criação da UNITA, declarou: “Para se fundar um partido tem de haver uma ideia forte. A pátria é uma ideia forte, a terra é uma ideia forte. A ideia forte é anterior à ideologia política. Amar cada vez mais Angola, estudá-la, descobrir seus valores, acreditar no seu futuro – tudo isso representa uma ideologia forte, humana e mobilizadora. Como podemos amar Angola, se não amamos nem a nossa aldeia, nem o nosso país, nem nossos irmãos, nem nossos familiares, nem nossa província? O nacionalismo não se constrói do nada. As relações com outros povos, com outros governos? Sim! Mas a condição é que elas não nos conduzam ao caminho da subalternização. A cooperação jamais indicará, aos nossos olhos, o caminho da opressão e do sacrifício dos valores angolanos. Jamais!”
Continuando com sua visão de Angola e de África, o Presidente Fundador enfatizava que os diversos pensamentos ideológicos – tanto os já surgidos quanto os que ainda viriam – poderiam e deveriam ser adaptados à prática, levando em conta o meio e a cultura dos habitantes. Ao longo de anos de luta e resistência, a direcção da UNITA foi forjando uma cultura própria de vida, convivência e vivência, que se resumiu na máxima: “Antes um método que uma ideologia.” Esse método seria capaz de conciliar as necessidades do Estado com as realidades específicas das sociedades africanas, impedindo a formação de um abismo entre as elites modernistas, muitas vezes ocidentalizadas, e as massas populares, menos presas a tradições inertes, abrindo caminho para um progresso no qual cada pessoa pudesse contribuir com seu grão de cimento e sentir-se protagonista de seu destino.
Jonas Savimbi afirmava, ainda, que a ideologia do partido deveria estar submissa às reais necessidades e aspirações do povo, rejeitando qualquer doutrina que se colocasse acima das demandas democraticamente verificadas. Menos ainda deveria ser aceite uma ideologia que privilegiasse ideias-força, como a de pátria e terra, ou pressões de ordem neocolonial, independentemente de suas aparentes aspirações. Essa posição é registrada no livro Jonas Savimbi, Une autre voie pour l’Afrique, do jornalista francês Jean-Marc Kalfléchhe.
Outras demonstrações da visão do Presidente Fundador encontram-se no capítulo “Êxodo dos Brancos: Causas e Efeitos”, presente na obra A Resistência em Busca de uma Nova Nação. Nele, evidencia-se que a UNITA defendeu o ponto de vista da nacionalidade para os diferentes grupos desde que se identificassem com a construção harmoniosa de uma nova Angola, aceitando integrar a “Escola da História”.
“A UNITA defendeu o ponto de vista da nacionalidade para brancos e mestiços, desde que esses estratos populacionais se identificassem com a construção harmoniosa de uma nova Angola, aceitando entrar na ‘escola da História’, para que os pretos, que são a maioria, não vivessem constantemente dos seus ressentimentos e os brancos quisessem transpor para uma Angola Independente a sua vida de privilégios do passado durante a época colonial.
‘Construção harmoniosa de uma nova Angola’ não significava para a UNITA apenas exclusão de guerra. Significava, além da exclusão da violência, que as camadas mais privilegiadas do tempo colonial aprendessem que tinham entrado numa nova vida, numa Nação acabada de nascer. Mas, significava também que os oprimidos se capacitassem de que a Independência traria para eles oportunidades iguais, para dessa forma evitarem precipitações e rancores”.
O papel dos movimentos de libertação, hoje partidos políticos, está a ser cumprido? Ou foram corrompidos pelas vantagens do poder? A experiência mundial mostra que, quando um partido se mantém no poder por muito tempo sem renovação democrática, torna-se autoritário e distante dos anseios do povo.
O MPLA está há décadas no poder e as promessas de desenvolvimento, justiça e igualdade continuam sendo adiadas. A corrupção, o nepotismo e a má gestão dos recursos nacionais perpetuam um ciclo de pobreza e desigualdade. Se as elites que conduzem o país não priorizarem reformas estruturais e uma verdadeira democratização, Angola continuará estagnada.
Como se poderá depreender e compreender de tudo narrado, não há discussão de ideologia ou como será amanhã dentro da UNITA, apenas há, como continuar a fazer compreender o povo angolano e não só de que é chegado o momento de o povo virar a página. O que importa é conscientizar o povo angolano de que chegou o momento de mudar. Em 2027, é fundamental votar massivamente na UNITA para iniciar uma nova era na governação do país, baseada em justiça social e progresso real para todos.
BEM HAJA, ANGOLA. PAZ E ALEGRIA
Por: Ernesto Mulato