Por Kamalata Numa
Luanda, 01/06/2026
Hoje é Dia Mundial da Criança. Momento oportuno para se pensar no destino dessas crianças em Angola.
Era uma vez, dizem que havia em Angola um partido tão antigo, tão poderoso e tão habituado a governar que, depois de muitos anos no poder, começou a sofrer de uma doença estranha: olhava para o espelho e julgava estar a ver a janela.
Certa manhã, um cidadão aproximou-se de um dirigente desse Partido Político e perguntou:
— Camarada, onde estamos?
O dirigente respondeu sem hesitar:
— Estamos no Partido.
— Não, camarada. Eu perguntei onde estamos.
— Já lhe disse. Estamos no MPLA.
— E Angola?
O dirigente olhou para os lados, consultou alguns documentos, reuniu uma comissão, criou um grupo de trabalho e prometeu apresentar conclusões dentro de cinco anos.
O cidadão foi embora sem resposta.
Com o passar do tempo, a doença agravou-se. Quando alguém perguntava pela História, surgiam várias versões. Quando alguém perguntava pelos fundadores, apareciam várias listas. Quando alguém perguntava pelos heróis, alguns eram homenageados, outros esquecidos e alguns pareciam ter sido colocados numa prateleira tão alta que ninguém mais os conseguia encontrar.
Um velho professor observava tudo aquilo com um sorriso irónico.
— Curioso — dizia ele. — É o único partido político que, depois de décadas de existência, continua em busca da sua própria certidão de nascimento.
Entretanto, o país enfrentava dificuldades. As escolas precisavam de mais qualidade. Os hospitais precisavam de mais recursos. Os jovens procuravam oportunidades. Mas os dirigentes continuavam ocupados a discutir quem tinha razão há cinquenta anos.
— E o futuro? — perguntavam os jovens.
— Primeiro precisamos resolver uma questão do passado — respondiam os dirigentes.
— Mas já passaram décadas!
— Exactamente. Por isso é uma questão muito importante.
Os anos passaram. Os discursos cresceram. Os problemas também.
Um dia, uma criança levantou a mão durante uma cerimónia oficial e fez uma pergunta simples:
— Se o MPLA e Angola são a mesma coisa, quando Angola tem problemas, significa que o Partido também tem?
O silêncio caiu sobre a sala como uma tempestade.
Os dirigentes consultaram relatórios, estatísticas, pareceres jurídicos e até especialistas internacionais. Mas ninguém encontrou uma resposta satisfatória.
A criança insistiu:
— E se não forem a mesma coisa?
Foi nesse instante que muitos perceberam que talvez o maior erro não estivesse numa data, num acordo ou numa decisão política. Talvez estivesse na convicção de que um partido podia ocupar o lugar de uma Nação inteira.
Porque os países pertencem aos seus cidadãos.
Os partidos pertencem aos seus militantes.
E quando um partido político começa a acreditar que é dono do país, corre o risco de um dia acordar e descobrir que permaneceu prisioneiro de si mesmo, enquanto a História seguiu para outro destino: o de uma Angola livre e sem o MPLA.
OBRIGADO!



