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O Lamento dos Sobreviventes

Lamento

Nunca ouvi, durante a guerra, um lamento tão profundo e sincero como o que escutei numa das canções dos manos das FALA, entoada pela voz do lendário “maestro” Kasinda. A canção retratava momentos de angústia vividos pelos guerrilheiros de Jonas Savimbi, cercados pelos combatentes das FAPLA, algures na margem direita do rio Danje, na província do Kuanza-Norte, no longínquo ano de 1985.
Ficámos a saber, durante um comício na Jamba, que o Batalhão 513, do comandante Mutwaxile, estava encurralado. O Dr. Savimbi dizia: “Neste momento em que vos falo, o 513 está cercado.”
Nós, crianças naquela altura, mesmo sem percebermos a gravidade da situação, ficámos tristes. Estávamos habituados a ouvir: “Do nosso lado, trigo limpo.” Mas, naquele dia, não foi bem assim. O Mais-Velho estava preocupado. Imaginei: se ele está assim, é porque a situação era realmente difícil.
Ansiosos, queríamos ter notícias frescas, mas a rádio local, a VORGAN, não fazia referências. E o tempo corria apressadamente; cada dia que passava significava vidas em risco. Tempos depois, ouvimos dizer que o pior tinha acontecido: houve um número de baixas nunca antes visto, infligido pela 47.ª Brigada das FAPLA. Segundo um ex-militar que operou naquela região, os kayandokas, alcunha dada às FAPLA, tinham montado um cerco aniquilador, no qual as vias de escape estavam controladas pelos chamados Destacamentos Territoriais, o DT do Lucala e o DT de Samba Cajú.
Mesmo assim, as tropas resistiam com todas as forças, enquanto as munições se esgotavam rapidamente: já não havia granadas de mão nem obuses de RPG-7. Para poupar o carregador, Mutwaxile ordenou: “Deixem de fazer rajadas. Disparem apenas tiro-a-tiro.” Foi assim que, na primeira brecha, conseguiram escapar, deixando para trás os mortos caídos no terreno.
Esse momento foi interpretado numa canção que deixava transparecer a gravidade do sucedido. A música exteriorizava a mágoa de perder vários companheiros de armas numa única sentada, sem terem sido sepultados. A melodia melancólica fazia com que quem a escutasse, mesmo sem entender a língua umbundu, deixasse cair uma lágrima. Era uma canção que vinha da alma e tocava fundo o coração de qualquer um. Era quase impossível não se emocionar perante a sua sinceridade, o tom de voz e o semblante dos homens que a entoavam. Mesmo eu, às vezes, no silêncio, ainda ouço a voz de Kasinda e o coro do seu grupo a cantar: “…valwa va fa” (muitos morreram).
Às vezes, sinto vontade de procurar um dos combatentes das ex-FAPLA que participou naquela operação, para lhe fazer algumas perguntas e completar esta história, mas infelizmente os meus familiares das FAPLA não operaram naquela região.
Com o tempo, a guerra cessou, mas as suas consequências mantiveram-se vivas. Hoje, a realidade de muitos desses homens é bem distinta. Por ironia do destino, alguns desses sobreviventes, quer das FAPLA quer das FALA, vivem hoje grandes dificuldades. Fazem das tripas coração para garantir o pão dos seus filhos. Aqueles que foram enquadrados na Caixa de Segurança Social das FAA recebem uma pensão em função da idade, e não da patente nem da responsabilidade que carregavam nos ombros durante o conflito armado. É triste.
Mas a razão deste texto é destacar a canção e o seu valor no tempo de guerra. Cada canto era um refúgio para os militares: desabafavam, enviavam recados aos comandantes, incentivavam os colegas e falavam dos hábitos e costumes das suas aldeias. Faziam planos para o período pós-guerra. Cada um acreditava que seria sobrevivente. Falavam das lavras, das árvores, dos animais, dos pássaros, dos rios e dos peixes; enfim, falavam de tudo quanto lhes era querido. Inclusive, recordavam as cores das vestes das raparigas e das suas roupas mais minúsculas. Cantavam: “ya’ amarela osaya yaco… ikusuka, ikusuka…” (a saia era amarela, e vermelha era…).
Estas são histórias da guerra. Não temos como as esquecer. Há quem não perceba por que razão se fala deste passado. Talvez tenham alguma razão: nunca enterraram companheiros; nunca enfrentaram uma situação de vida ou de morte na qual quem sobreviveu, muitas vezes, nem sabe explicar como. É verdade.
Voltarei…
Luanda, 23 de Novembro de 2025
Gerson Prata

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