Mal ACJ tinha convocado o XIV Congresso da UNITA, já o país político se mexia diante desse verdadeiro acontecimento do ano. Eram os membros e os simpatizantes da UNITA, eram os analistas políticos de todos os quadrantes, eram também os muitos assalariados do tristemente célebre gabinete de acção psicológica do poder em Angola, todos eles a fazerem o seu prognóstico sobre quem se vai candidatar e quem será eleito! É assim a força que os grandes partidos têm!
Mas, nas vésperas do XIV Congresso, eu quero voltar atrás para falar-vos sobre o Congresso da UNITA realizado em 2003, o IX Congresso.
Em Junho de 2002, na sua qualidade de Coordenador da Comissão de Gestão da UNITA, o General Paulo Lukamba Gato esteve de visita a Lisboa, acompanhado de Alcides Sakala. Numa conversa amena, perguntei-lhe: “Porque é que o General não se proclamou Presidente da UNITA, em Fevereiro de 2002, após a morte do Dr. Savimbi e do Vice-Presidente Dembo, sabendo que essa decisão seria certamente apoiada por membros do Partido dentro e fora do país, já que eras a terceira figura da hierarquia do Partido?”
Sem pestanejar, o General Gato deu-me uma resposta pronta: “Se eu me tivesse proclamado Presidente da UNITA, talvez viesse a ter apoio nessa decisão por membros da UNITA! Mas, me faltaria legitimidade e isso é bastante importante no exercício das funções do Presidente de uma organização da importância da UNITA! Tarde ou cedo, iria ser acusado de ter usurpado o poder no Partido, sem o merecer! Além disso, depois da morte do Presidente da UNITA, para se firmar na sociedade, o Partido tem de surgir com algo surpreendente e imbatível!”
“E era preciso uma Comissão de Gestão?”
“Sim! Porque a Comissão de Gestão é um meio para se criarem as condições necessárias para a realização de um Congresso democrático, onde possam aparecer candidatos à presidência e democraticamente se eleja um deles como Presidente da UNITA. Nessas condições, esse Presidente terá legitimidade irrepreensível e dirigirá o Partido sem contestação.”
Perante esta resposta, o General calou-me e eu dei-lhe toda a razão.
Ao longo dos meses seguintes, a UNITA reuniu as tais condições necessárias, surgiram os candidatos à presidência e, no Congresso, diante de vários observadores externos, no dia 27 de Junho, o mais velho Isaías Samakuva foi eleito Presidente da UNITA. Curiosamente, Lukamba Paulo Gato foi um dos derrotados, ao lado de Dinho Chingunji. Tinha sido conseguida a tal legitimidade política que o general Gato almejava. Diante os membros do Partido e dos cidadãos angolanos em geral, que grande foi essa lição do General Gato! Aconteceu há 23 anos!
Hoje, quando vejo que alguns partidos da nossa praça política ainda estão a patinar em relação ao que fazer com os seus Congressos, não posso deixar de voltar para trás e reconhecer a enorme visão que naquela altura Lukamba Gato teve. Agora, a UNITA habituou-se fazer os seus Congressos dentro da normalidade, segundo os trâmites que estão definidos nos seus próprios Estatutos que são redesenhados em cada Congresso! Estranhamente, estando de fora, quem não consegue fazer os seus Congressos assim, diante da convocatória do XIV Congresso, quer ser ele a determinar quem deve ser o próximo Presidente da UNITA. Esses são os desafios que todas as democracias têm, aos quais os membros da UNITA têm de se habituar e é isso que os vai fortalecer. As democracias testam os cidadãos para tomarem as decisões mais acertadas diante de mil e uma adversidades.
Deixem que eu apresente os meus parabéns ao General Paulo Lukamba Gato. Sem a menor dúvida, com o seu acto deu uma grande lição aos membros da UNITA, mas também a muitos angolanos. A legitimidade na direcção da UNITA ganha-se com a força que se recebe dos militantes do Partido.
Vem aí o XIV Congresso. Está o país todo a olhar para nós. Estejamos em Conferências Comunais, Municipais, Provinciais ou Centrais, para trabalharmos na análise das teses que serão apresentadas e discutidas neste Congresso. Tratemos também de analisar e aprovar as alterações aos Estatutos do Partido, nossa carta magna. Além disso, preparemo-nos para eleger o próximo Presidente da UNITA. Eleito o Presidente, saibamos honrar a nossa própria escolha. Não exijamos mais do que isso. Na UNITA, só o Congresso é soberano!
Viva o XIV Congresso da UNITA!
Viva Angola!

Por: Dr. Rúben Anastácio Sikato



