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DENILSON DURO: TRANSFORMAR AUTORITARISMO EM “MARKETING POLÍTICO”

General Numa

Por Kamalata Numa

Luanda, 27/12/2025

Denilson Duro realiza uma operação clássica de intelectual orgânico do poder ao despolitizar a dominação e repolitizar o marketing no seu texto “A UNITA cresce, mas o MPLA ainda controla a surpresa eleitoral”.

Em vez de discutir o controlo institucional, a repressão, a captura do Estado e a fraude estrutural, desloca o debate para o “ciclo de vida do produto”, a “saturação eleitoral” e o “reposicionamento da marca”.

Isto não é neutralidade analítica. É encobrimento sofisticado do autoritarismo.

Em regimes competitivos normais, o marketing político pode ajudar a explicar eleições. Mas, em regimes eleitoralmente capturados, como Angola, o marketing não decide — decide quem controla as regras, os árbitros e a força.

Quanto ao uso abusivo e selectivo dos dados do Afrobarometer, Denilson Duro cita o dado segundo o qual a UNITA teria crescido de 8% (2022) para 14% (2024). O problema central é que o Afrobarometer não mede eleições. Mede percepções políticas recolhidas sob medo, vigilância e auto-censura.

Em Angola, o viés do medo é amplamente documentado. Denilson Duro omite deliberadamente isso, quanto:

  • ao controlo da CNE pelo MPLA;
  • ao papel do Tribunal Constitucional como órgão partidário;
  • a inexistência de contagem pública, auditável e independente.

Sem estas variáveis, qualquer leitura “de mercado” é cientificamente inválida.

Porque, na falácia da “saturação da UNITA”, Denilson Duro afirma que “crescimento lento após uma eleição polarizada indica saturação”. Isso só é verdadeiro em mercados livres.

Em Angola, a UNITA cresce apesar de:

  • censura mediática;
  • repressão policial;
  • assassinatos políticos não investigados;
  • uso das FAA e da Polícia Nacional como instrumentos partidários;
  • tribunais eleitorais capturados.

Crescer 14% nestas condições não é saturação — é resiliência política sob repressão. Chamar isso de “produto previsível” é cinismo analítico.

Surpreendentemente, com o planeamento estratégico eleitoral que permitiu os resultados eleitorais de 2022, a UNITA/FPU estarão mais próximos da victória eleitoral em 2027 do que da manutenção do poder pelo MPLA.

É por isso que Denilson Duro não fala a verdade e escreve que “a UNITA centra o debate na fraude”, como se isso fosse uma opção discursiva, e não uma necessidade política e histórica, quando mantém o silêncio cúmplice sobre a fraude eleitoral.

O que Denilson Duro não diz, é que:

  • a CNE nunca foi independente;
  • o Tribunal Constitucional nunca decidiu contra o MPLA, salvo as inconstitucionalidades da lei sobre o vandalismo publico;
  • os resultados eleitorais nunca foram auditados;
  • os observadores independentes são limitados ou expulsos;
  • as forças de segurança intervêm sistematicamente.

Ignorar isso não é análise. É a normalização da ilegalidade.

“O elemento surpresa já não está com a UNITA. Está com o MPLA.”
Isto é propaganda refinada por manter a mentira elegante do “elemento surpresa do MPLA”.

O MPLA não surpreende:

  • muda o rosto;
  • mantém o sistema;
  • usa o Estado;.
  • reprime quando necessário;
  • manipula quando possível.

Isso não é surpresa. É reprodução autoritária clássica, amplamente estudada por:

  • Levitsky & Way;
  • Schedler (mal citado por Denilson Duro);
  • Carothers.

Denilson Duro usa a linguagem da ciência política para justificar práticas que ela própria condena.

A inversão moral de culpar a vítima pela previsibilidade, o texto sugere:

  • UNITA = a previsível;
  • MPLA = a estrategicamente adaptável.

Mas a realidade é outra:

  • UNITA — actuação limitada por repressão, censura e ilegalidade;
  • MPLA — vantagem artificial garantida pelo controlo do Estado.

Quando um partido joga com árbitro comprado, o problema não é a táctica do adversário.

O apagamento deliberado do papel das forças de segurança, o silêncio sobre o papel das FAA, da Polícia Nacional e da Segurança do Estado não é inocente.

Qualquer análise honesta sobre eleições em Angola tem de abordar:

  • a militarização do processo eleitoral;
  • a intimidação selectiva;
  • o uso político dos serviços de inteligência;
  • a criminalização do protesto.

Ao não fazê-lo, Denilson Duro:

  • protege o sistema;
  • culpa a oposição;
  • legitima a repressão.

Finalmente, isto não é análise. É defesa sofisticada do regime.

O texto de Denilson Duro:

  • não é neutro;
  • não é completo;
  • não é metodologicamente honesto.

É um texto:

  • politicamente interessado;
  • intelectualmente disciplinado pelos Comités de Especialidade do MPLA;
  • desenhado para convencer elites, não para explicar a realidade.

A verdade central que tenta ocultar é simples: em Angola, eleições não decidem o poder. O poder decide as eleições.

Enquanto a CNE não for independente, o Tribunal Constitucional não for constitucional e as forças armadas e policiais não forem apartidárias, nenhuma teoria de marketing político explica resultados eleitorais. Ela apenas explica quem quer manter o sistema como está.

OBRIGADO!

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