Essa narrativa que consistiu em dizerem que eu teria sido capturado ou que me teria rendido às FAA, em 2002, é tão falsa como a afirmação de que foram os militares que fizeram a paz em Angola.
Passados 24 anos achei importa repor a verdade dos factos e clarificar conceitos.
Os militares não declaram a guerra nem fazem a paz por iniciativa própria. A guerra e a paz decorrem de decisões tomadas ao nível das instâncias políticas competentes. Os militares executam as orientações estratégicas definidas pelo poder político. Não seria diferente em Angola.
As Forças Armadas são um instrumento do Estado, ao serviço da defesa da soberania e da integridade territorial, bem como da segurança nacional, nos termos da Constituição e da lei. Não lhes compete decidir o destino político da Nação.
Em 2002, o fim da guerra em Angola resultou de uma decisão política que abriu caminho ao entendimento e à formalização dos instrumentos que permitiram encerrar o conflito armado. Os militares tiveram o seu papel na execução desse processo, mas não foram eles que decidiram fazer a paz.
Por isso, confundir a execução militar de uma decisão política com a autoria dessa decisão é distorcer a História.
É importante sublinhar que foi o General Sachipengo Nunda quem, no momento próprio, facilitou a comunicação entre o Presidente José Eduardo dos Santos e eu, na qualidade de então Secretário-Geral da UNITA. Essa comunicação com o Presidente permitiu reorganizar o formato das negociações que conduziram ao Memorando do Luena.
É igualmente importante registar um facto concreto: o projecto do Memorando do Luena foi enviado de helicóptero ao Secretário-Geral da UNITA, que ainda se encontrava na sua base de Lukonya, no Leste do país, para que pudesse dar o seu parecer antes da respectiva rubrica. Foram portadores desse projecto os mais velhos José Samuel Chiwale e Isaías Chitombi.
A paz não pertence a um exército, nem a um partido. Pertence à Nação.




